Fragmento de uma biologia dos monstros antigos
Poderás pelo poder da tua fábrica produzir monstros antigos?
Poderás, mesmo sem vestígios fósseis,
pela pura compreensão do seu genoma,
construir um centauro,
de raiz, sem pai nem mãe,
como um programa na máquina a correr,
ou apenas com peças avulsas de monstros modernos?
Será possível um corpo,
metade homem metade cavalo,
que a evolução não trouxe, natural, até hoje,
resultar da tua habilidade recente?
Nasceria de tal arte um rosto, torso e braços semelhantes aos teus
com garupa e pernas de equídeo?
Pergunto-me de que outras estruturas corporais complicadas
será capaz o teu engenho.
Bichos fantásticos, metade lagostim metade cabra,
vivendo ora em seco ora na água?
entes metade anjo metade escorpião,
metade virgem metade rei,
metade candura metade linguagem?
Estará no poder da tua fábrica
compreender a génese ao ponto
de estruturas corporais espantosas resultarem,
produzindo novos monstros antigos,
metade palavra metade silêncio,
vivendo ora nos teus ora nos meus medos?
Porfírio Silva
Nota. Este poema, aquando da sua primeira disponibilização pública, estava dedicado à Mariana R. - e continua, hoje, dedicado à Mariana, mesmo que ela ainda ache (erradamente) que a sua ciência não chega para a alquimia aqui sugerida. Ainda para mais depois de ela me ter dado a honra e o gosto de deixar que se veja este texto no seu apartamento parisiense. Farás, depois, robots de novo género com a tua biologia, Mariana?