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(no dia internacional da mulher)

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Águas. (Foto de Porfírio Silva)

é comum os homem considerarem a possibilidade de esculpir mulheres.
não como esculturas de carne, não em fazê-las corpos belos
porque em geral os homens só consideram esculpir mulheres já dotadas de corpos belos
mas esculpi-las moralmente
como esculturas de comportamentos que eles julgam sofisticados
esculturas de modos de ser delicados, de maneiras rebuscadas,
de uma inteligência sensual e um apelo suave mas insistente ao desvario.

é de uso os homens pensarem nas mulheres como seres educáveis
muito embora o magno problema da educação
só lhes ocorra para certos olhos de uma particular luz
para certos lábios de uma especial carnura
para certos seios de uma curva evanescente,
porque em geral os homens só pensam em educar mulheres perturbadoras
e as suas teorias educativas, de tão elementares,
batem sempre no ponto do bom selvagem.

um escolho notável para esta pulsão escultórica
está, as mais das vezes, em que os homens conhecem mal
o tema do bom selvagem e assim não têm meios
para evitar o clássico das descobertas:
que o confessor ingénuo se converta
aos pecados do seu penitente e aos demónios do seu incréu,
ao paraíso celeste daquele gentio que a sua teologia dita desprovido de alma.

Uma perdição notável é sermos esculpidos pelas nossas estátuas.


Porfírio Silva

(Que eu escreva sobre a mulher, isso deve acontecer fora das efemérides. Se não somos capazes de criar as nossas próprias efemérides, as nossas efemérides pessoais, as nossas efemérides grupais, as efemérides da nossa pequena tribo, de que vale escrever? É assim que o poema acima foi fruto da escrita de outro dia, tendo sido dedicado à Margarida M. desde a sua primeira aparição. Continua, hoje, dedicado à Margarida M., mas, também a todos e a todas para quem o enigma da mulher alimenta as suas viagens por terra e por mar.)

Comments

Comento com um poema do Pablo Neruda

Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.

Elas lutam por aquilo em que acreditam.
Elas levantam-se contra a injustiça.
Elas não aceitam um "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.

Elas andam sem sapatos novos para
que os seus filhos os possam ter.
Elas vão ao médico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.

Elas choram quando os seus filhos adoecem
e alegram-se quando os seus filhos ganham prémios.
Elas ficam contentes ao falarem de um aniversário
ou de um novo casamento.

Pablo Neruda

...esculpidas.

Pena é que eles só procurem os nossos olhos para os iluminarem,
os nossos lábios carnudos para os beijarem,
as nossas curvas evanescentes para as acariciarem.

Pena é que eles não nos esculpem.

Porque para isso, eles ainda não entenderam que, primeiro, é necessário conhecer a pedra, os seus veios, as suas nervuras ... Passar mais tempo a admirar o interior.

Como nós gostaríamos de ser esculpidas por alguém que nos conhecesse por dentro e que nos permitisse continuarmos o caminho a flutuar, entregues a uma força que zelasse por nós.

Mas, como dizes, Porfírio, eles acabam por ser esculpidos pelas suas esculturas, que com os seus "frágeis" braços remam em direcção do futuro!

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