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"Olhares sobre a Filosofia"

A Jornada “Olhares sobre a Filosofia. A Filosofia na Escola, na Cidade e na Cultura”, organizada por Maria Luísa Ribeiro Ferreira, Isabel Matos Dias e Adelino Cardoso, todos da comunidade filosófica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, teve lugar na passada sexta-feira, com sala apinhada todo o dia no Centro Nacional de Cultura.

Ideias sobre a filosofia que por cá temos.
Foram lá ditas muitas coisas interessantes e importantes. Não podendo reter todas, lembramos algumas. Adriano Moreira, questionando-se sobre o papel da filosofia no modelo político ocidental, pronunciou-se contra a “mercadorização” da cultura e defendeu que a sociedade do conhecimento tem de ser também a sociedade da sabedoria. Aí, citou Gandhi como tendo escrito “Lembro-me da minha ignorante e muito sábia Mãe”. João Maria André, filósofo da academia de Coimbra, falou como homem do teatro e de como as suas experiências de animação cultural (tais como teatro feito por e com pessoas sem abrigo) seriam outra coisa completamente diferente (e mais pobre) sem a capacidade de filosofar nessas vivências. Diogo Pires Aurélio lembrou os pecados que nos cercam culturalmente: a ideia de que a ciência (positivista) é a única forma de saber (a que chamou “modernismo”), a ideia de que tudo são pontos de vista e narrativas (a que chamou “pós-modernismo”), a ideia de que o saber só interessa se tiver utilidade imediata (a que chamou “utilitarismo”). José Manuel Curado, da Universidade do Minho, criticou o facilitismo e perguntou: porque é que a engenharia e a medicina (por exemplo) não sentem que a época esteja a ser injusta com elas e a filosofia se queixa tanto da sua cidade? E respondeu: porque se calhar não está a fazer o trabalho de casa.

Os filósofos desertaram da cidade?
Numa mesa com engenheiros e médicos (“Filosofia e Inteligibilidade Científica”) ficou a amostra de como poderia ser útil a filosofia frequentar mais as casas das suas filhas (as faculdades das ciências). Nesse contexto, o médico e filósofo Miguel Oliveira da Silva suscitou uma das questões mais candentes para a comunidade filosófica, se ela ainda tiver capacidade para se questionar: porque é que a filosofia não desce à cidade? Por exemplo, onde estiveram os filósofos no recente debate sobre o aborto? Onde estão os filósofos agora que se segue a questão da regulamentação da objecção de consciência?

A ferida na comunidade filosófica portuguesa.
Na sessão da manhã, Fernanda Henriques, da Universidade de Évora, pessoa com experiência dos meandros do Ministério e com memórias das guerras passadas, disse algo que todos os filósofos (ou, pelo menos, todos os professores de filosofia) têm de escutar com ouvidos de ouvir. Concorde-se ou não com tudo o que disse (e nós não concordamos), expôs o bezerro de ouro à fúria da multidão quando lembrou de forma muito tempestiva: há uma profunda cisão na comunidade filosófica portuguesa. E, acrescentamos nós, essa cisão, entre “analíticos” e “continentais”, é uma ferida que tem sangrado muito à volta dos programas do secundário. Fernanda Henriques teve a coragem de mostrar, pelo exemplo, que não podemos baixar o nível da discussão ao ponto de tratarmos os “outros” como incompetentes só por não concordarmos com eles.

A amálgama voraz.
Na sessão de abertura o secretário de estado Jorge Pedreira disse três coisas simples. Primeiro: contrariamente ao que tinha dito o representante do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, não há nenhum desinvestimento em filosofia do ponto de vista do seu peso disciplinar no currículo do secundário; nem esse peso é menor cá do que noutros países europeus. Segundo: o secundário é um grau de ensino com missões próprias, não serve apenas para aceder ao superior; assim sendo, não é razoável exigir que a filosofia seja disciplina obrigatória para todos os alunos como condição de conclusão do secundário; isso não acontece em nenhum país europeu. Terceiro: o ministério está aberto a que possa haver exame de filosofia para efeitos de acesso ao ensino superior. Pois bem: ninguém se deu ao trabalho de ripostar às questões levantadas pelo governante. Alguém repetiu acusações já sabidas, mas responder ao que ele disse, ninguém. Pior: ninguém teve o bom senso de dizer logo ali, claramente, à frente do governante e do público, que ele tinha manifestado abertura e essa abertura não seria desperdiçada. Porquê?
O pior do dia, que teve voz principalmente durante a manhã, foi a amálgama entre os problemas de um grupo profissional (professores de filosofia) e os problemas da filosofia na cidade. Quando um jovem, que jovem é, perguntou: “e estão os professores aptos a ensinar filosofia?”, mandaram-no perguntar a quem soubesse. Ora toma. Toma? Mas essa questão não interessa aos professores de filosofia?
Os professores de filosofia, e os filósofos, estarão sempre mal enquanto não descerem à cidade como filósofos para meter as mãos nas coisas difíceis, para se sujarem e perderam a candura académica. Enquanto estiverem mais preocupados com a quantidade de trabalho disponível para a classe docente não servem para ajudar a encontrar respostas àqueles desafios que lançaram, por exemplo, Adriano Moreira, Diogo Pires Aurélio ou José Manuel Curado. O que consome é essa amálgama voraz entre a corporação e o amor à sabedoria.

Comments

Agradeço a amabilidade desta síntese, na impossibilidade de estar presente - interioridade dixit - ...eu como prof.de filosofia sinto efectivamente uma grande "ausência" em descer à "ágora"...a filosofia, os seus melhores, não se sente...
Um abraço
Morfeu

"Os professores de filosofia, e os filósofos, estarão sempre mal enquanto não descerem à cidade como filósofos para meter as mãos nas coisas difíceis, para se sujarem e perderam a candura académica".
Esta frase, mesmo lida como genérica e não como quantificação universal, é muito provavelmente falsa. Haverá algum sentido de "estar mal" no qual gente como Saul Kripke, David Lewis, Kit Fine, David Kaplan e Timothy Williamson, dos maiores filósofos dos últimos anos, tenham estado mal? Que eu saiba, nenhum deles alguma vez desceu à cidade (no sentido intencionado para a expressão). Se o tivessem feito, talvez não estivessem em condições de nos dar do melhor da filosofia mais recente.

Nem todos os físicos participaram pessoalmente na construção da bomba atómica, nem todos estiveram em Los Alamos. Mas os físicos que contribuíram para o conhecimento que permitiu o desenvolvimento da bomba atómica desceram à cidade. Melhor: caíram sobre a cidade, sobre certas cidades japonesas, sobre todas as nossas cidades como ameaça estratégica. Alguns deram-se conta disso e falaram, acautelaram. Todos esses desceram à cidade, de uma ou de outra forma.
Os físicos que alertaram para os perigos da bomba atómica não vieram a público explicar teorias físicas: vieram explicar as consequências possíveis do uso que se estava a dar a essas teorias. Os filósofos não precisam vir a público apresentar os seus estudos para descer à cidade: podem vir partilhar o que esse saber lhes permite compreender.
É que também podemos descer à cidade pelo silêncio, pela ausência, até pela cobardia. A filosofia não precisa de todos e cada um dos filósofos a falar sobre tudo em todas as tribunas. Descer à cidade é um risco: podemos, também desse modo, fazer muito dano. Mas a apologia de uma filosofia que nada diz ao mundo é a apologia de uma filosofia castrada.

também lá estive e fiquei com a ideia de mais do que enaltecer a filosofia e tentar demonstrar que quem não vê isso é que está mal, era tentar perceber porquê essa percepção e o que se pode fazer para a mudar. colocar a pergunta de maneira diferente e não tão defensiva. talvez a resposta não implique descer à cidade ou popularizar a filosofia. talvez haja outros caminhos. mas não parecem estar a ser discutidos...

Não creio que seja só um problema de percepção.
Incomoda-me que "descer à cidade" seja equacionado como "popularizar a filosofia".
Por mim, interesso-me por todos os caminhos. Não pertenço a nenhuma escola e respondo a todos os convites, na medida das minhas forças. Como não pertenço a nenhum exército não entro em nenhuma batalha de uns contra outros.
Que mil flores desabrochem (como diziam, cinicamente, os guardas vermelhos da "revolução cultural").

"Descer à cidade" não é popularizar a filosofia. Isso é uma identificação precipitada e até demagógica! Trata-se antes de fomentar o debate na comunidade filosófica sobre os seus diferentes caminhos e de pensar o lugar e estatuto da filosofia perante as questões coloca o mundo de hoje. A intervenção sobre a robótica foi um bom exemplo. Isabel Matos Dias

A filosofia é uma actividade pública. Nem sequer vejo qual a questão a ser debatida neste ponto. De resto, como qualquer ramo do saber ou ciência, também a filosofia possui os seus níveis de discussão mais sofisticados e especializados. Porque não se coloca o problema da matemática, física ou biologia descer à rua? Não se compreende porque é que este problema se coloca à filosofia. A filosofia, repito, como qualquer saber, é de interesse público e não de alguns. O problema, parece-me, passa por uma falta de cultura sólida na filosofia. Mas essa falta que faz não compreender a sua necessidade é precisamente o primeiro passo para percebermos de uma vez por todas a urgência em fazer da filosofia um interesse público e não somente um interesse privado para conseguir um qualquer lugar como professor na universidade. Acontece que, sem público, não há ensino da filosofia, cursos ou o que quer que com ela se relacione. Isto é simples de ver e qualquer um de nós que sabe e estuda filosofia não deveria ter vergonha em pensar de modo claro, simples e objectivo-prático. Uma boa sugestão era os professores de filosofia do ensino superior começarem a publicar pequenas introduções à filosofia para o público e o grande público. As melhores universidades do mundo fazem isto, sem que tal envergonhe a filosofia. Bem pelo contrário. Têm tido resultados surpreendentes com um público cada vez mais vasto a interessar-se pela filosofia. E isto é fazer a filosofia descer à rua, dar uma oportunidade à pessoa comum de se interessar pela filosofia e abrir-lhe a possibilidade de, um dia, poder tornar-se filósofo.
Abraço
Rolando Almeida

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