Duas derrotas
1. Ségolène perdeu. Em França é quase sempre assim. Raras vezes a esquerda tem chegado ao topo do poder de estado. Os barões socialistas logo começaram a morder na senhora. Isso também é habitual em França: não há qualquer pudor em entrar nos barcos das vitórias quando elas existem, tal como ninguém se inibe de morder os derrotados como se o mundo estivesse todo nas suas mãos e eles perdessem necessariamente pela sua incapacidade intrínseca. Havia, talvez, um candidato melhor do que Ségolène: Strauss-Kahn. Mas, mesmo os homens que talvez sejam grandes, deviam perceber que a história passa por outras coisas maiores que as suas cabeças brilhantes. Neste caso, a vitória de uma mulher para presidente, pelo lado da esquerda, teria um significado próprio. Por uma razão simples: porque é uma entorse à democracia que isso nunca tenha acontecido. Mas "homens inteligentes" como certos dirigentes socialistas franceses são incapazes de perceber isso, são incapazes de compreender que a mudança não se faz só com "ideias", "projectos", "renovações social-democratas". Que a mudança tem de acontecer com "acontecimentos". E seria um acontecimento que uma mulher "quase normal", esposa e mãe, tivesse completado a sua carreia política com a presidência. Hilary Clinton talvez lá chegue, quem sabe.
2. Jardim venceu. Não tenho fígado para falar muito nisso. Mas uma coisa tem de se dizer: aquilo não é uma democracia e é uma vergonha que os órgãos próprios do Estado, a começar pelo Presidente da República, olhem para o lado e façam de conta que não vêem nada. Tal como é uma vergonha que o PS "de Lisboa" ainda venha saudar a vitória do ditador. Que asco. Se aquilo fosse o ambiente que nos tocasse a nós viver, aqui no continente, suportaríamos essas palmadinhas nas costas? Aqueles que criticam com tanta facilidade o distante presidente da Venezuela calam-se a isto. Isso prova que Jardim há muito tempo começou a exportar o terror das suas ilhas para o continente: exporta os silêncios obrigados, os medos, a auto-censura, a conivência com o inaceitável. Tudo começa sempre assim.
Que domingo!
2. Jardim venceu. Não tenho fígado para falar muito nisso. Mas uma coisa tem de se dizer: aquilo não é uma democracia e é uma vergonha que os órgãos próprios do Estado, a começar pelo Presidente da República, olhem para o lado e façam de conta que não vêem nada. Tal como é uma vergonha que o PS "de Lisboa" ainda venha saudar a vitória do ditador. Que asco. Se aquilo fosse o ambiente que nos tocasse a nós viver, aqui no continente, suportaríamos essas palmadinhas nas costas? Aqueles que criticam com tanta facilidade o distante presidente da Venezuela calam-se a isto. Isso prova que Jardim há muito tempo começou a exportar o terror das suas ilhas para o continente: exporta os silêncios obrigados, os medos, a auto-censura, a conivência com o inaceitável. Tudo começa sempre assim.
Que domingo!
Comments
Ségolène ganhou. Ganhou aquilou que muito poucos socialistas algumas vezes ganharam. Rasgou fronteiras. Manteve um rasgado sorriso. Fez um discurso de vitória, de renovamento, de esperança: "qq chose de nouveau a commencé". Quel cran!
Os dinossauros morderam-lhe as canelas, como teriam mordido se ela tivesse ganho. Ter-lhe-iam feito a vida negra, depois de ter puxado o lençol todo para o lado deles.
O PS francês precisa de uma lavagem de fundo. De sacudir todas as velhas cabeças que continuam só a olhar para a sua projecção pessoal.
Vive la république,
Vive la France,
Vive Ségo.
Posted by: Paula Marques | maio 7, 2007 11:08 AM