Cientistas e filósofos: haja decoro
Como a generalidade dos que falam de Feyerabend sem o terem lido seriamente, ou sem o terem compreendido, Fiolhais acusa Feyerabend de ser “um dos modernos inimigos da ciência”, de ser um anarquista, de ser “uma espécie de Vasco Pulido Valente da ciência” que (apenas) “vê o que dizem os outros e defende, com visível talento, a opinião contrária”. Tudo isto só pode ser dito por quem não foi capaz de ler (com olhos de ver) Feyerabend.
Em primeiro lugar, Fiolhais faz de conta que conhece a obra de Feyerabend, comentando vários livros seus como se os tivesse estudado e soubesse o que eles valem. Contudo, o que Fiolhais diz é demasiado ligeiro e demasiado insustentável nos textos para ser mostra de conhecimento. O Professor parece pensar que Feyerabend começou a pensar a sua filosofia da ciência com a publicação do livro Contra o Método e diz que ele “passou o resto da sua vida a justificar o que aí tinha escrito”. Fiolhais ganharia alguma coisa em saber que essa obra é apenas um “resumo filosófico” de muitos trabalhos anteriores sobre filosofia da ciência, trabalhos muito mais técnicos e detalhados e que dão um fundamento sólido ao principal argumento deste livro. Este livro é o fecho de um argumento e não o princípio. Se Fiolhais conhecesse os estudos anteriores ganharia algo em compreensão, evitando dizer, por exemplo, que Feyerabend é um anarquista. A forma como Fiolhais fala de diversas obras de Feyrabend mostra a sua superficialidade. Diz que Adeus à Razão é uma obra mais séria, quando essa obra é a recolha dos piores textos (dos textos mais relativistas) de Feyerabend, aquela obra onde melhor se nota que o gosto excessivo pela polémica pode levar ao disparate. Diz que “a conversa do Diálogo sobre o Método é por vezes fiada, ainda que parecendo afiada”, com a qual “não vale a pena perder muito tempo”. Fiolhais teria ganho mais em perder algum tempo a compreender as matérias sobre as quais se pronuncia. Na verdade (embora na versão portuguesa falte um dos três diálogos originais), é nessa obra que Feyerabend esclarece o que se pode chamar “o desvio relativista” de um certo momento do seu percurso. Mas isso é feito com a subtileza de um diálogo filosófico, com muitas referências para a obra anterior, e isso escapa ao apressado Fiolhais. É típico: muitos leitores arrogantes têm tropeçado em muitos exemplares de diálogo filosófico.
Em segundo lugar, Fiolhais faz de conta que Feyerabend é um “habilidoso”: diz que se trata de “um provocador culto”, que “estudou história das ciências” e que “sabe escrever escorreitamente”. Não: Feyerabend tinha formação científica de nível superior (em física) e essa foi uma das razões do seu impacte em filosofia da ciência: sabia do que falava. Além do mais, para quem tenha tendência para querer defender os cientistas dos pretensos ataques de Feyerabend, convém que se perceba que Feyerabend se dedicou principalmente a atacar certos filósofos (por inventarem teorias disparatadas sobre a ciência), muito mais do que a "atacar" os cientistas. A sua grande tese, nesse ponto, é que a maioria dos filósofos da ciência não percebem o que os cientistas fazem. Mas essa parte Fiolhais não captou.
Fiolhais não é o primeiro, nem será o último, a falar de Feyerabend sem perceber o que ele escreveu. Inúmeros comentadores marginais (isto é, que falam de certos assuntos pela rama, por ouvir falar, e não por verdadeiro estudo) consideram que Feyerabend é partidário de um anarquismo epistemológico, que isso o leva a ser contra o método científico e que, portanto, propõe como princípio metodológico para a ciência a consigna "vale tudo". Os mais apressados citam frequentemente o seguinte excerto de Contra o Método: “existe apenas um princípio susceptível de ser defendido em todas as circunstâncias e em todas as fases da evolução humana. O princípio: vale tudo.”
Ora, na verdade, o que escreve Feyrabend é o seguinte: “a ideia de um método fixo, ou de uma teoria fixa da racionalidade, assenta numa visão demasiado ingénua do homem e das condições sociais que o rodeiam. Para os que têm olhos para a riqueza do material histórico, e não pretendem empobrecê-lo a fim de satisfazer os seus instintos mais baixos, a sua fome de segurança intelectual sob a forma de clareza, precisão, "objectividade", "verdade", é evidente que existe apenas um princípio susceptível de ser defendido em todas as circunstâncias e em todas as fases da evolução humana. O princípio: vale tudo.”
Pretendem alguns que Feyerabend defende aqui o princípio metodológico “vale tudo”. Mas quem assim pretende não percebeu o que lá se diz. O que aí se diz é que o princípio "vale tudo" se torna inevitável no caso de se pretender que o método seja válido em todas as circunstâncias e em todas as fases da evolução humana. Ora, o início da declaração mostra que Feyerabend não alinha nessa pretensão. Trata-se, portanto, de afirmar que o método científico muda. Como escreveu Fernando Gil, em Provas: “Feyerabend quer sobretudo sublinhar a variedade (mais do que a irracionalidade) dos procedimentos da prova”.
Conviria, portanto, ler com cuidado. Mas, especialmente para aqueles que são académicos, poder-se-ia pedir, sem exagero, que, se têm dúvidas, sigam o autor que citam e criticam e, assim, tomem precauções contra a precipitação. Feyerabend explicou, mais tarde, com mais pormenor, o significado dessa declaração. Faz isso logo em 1978, em Science in a Free Society (Londres, New Left Books, 1978), em vários pontos. Quase no início (pp. 39-40): “Note-se o contexto da declaração. "Vale tudo" não é o princípio de uma nova metodologia recomendada por mim. (...). Se a minha descrição está correcta, então tudo o que um racionalista pode dizer acerca da ciência (...) é: vale tudo”. Pode concordar-se ou não, mas o que se lê é uma crítica aos racionalistas (seja o que for que Feyerabend quer dizer com isso, não vamos discuti-lo aqui). Acrescenta: “(...) "vale tudo"não expressa uma convicção minha, é um resumo jocoso do predicamento do racionalista: se queres padrões universais, se não podes viver sem princípios que se apliquem independentemente da situação, da forma do mundo, das exigências da investigação, das peculiaridades do temperamento, então eu dou-te tal princípio. Será vazio, inútil e ridículo — mas será um "princípio". Será o "princípio" "vale tudo"”. (p. 188) Quanto ao pretenso projecto de Feyerabend para "acabar com o método", para continuar apenas na mesma obra: “as regras e padrões não são abolidos — não podemos encetar a investigação sem qualquer equipamento metodológico — mas são usadas à experiência e mudadas quando os resultados não são os esperados” (p. 166).
Em resumo: um blogue excelente como o De Rerum Natura devia cuidar do que lá se escreve. Não deveria vender-nos gato por lebre: não nos deveria dar textos pretensamente bem informados quando eles afinal não passem de comentários apressados sobre coisas que os seus autores apenas contactaram de forma muito superficial.
Já agora, se o Carlos Fiolhais achar que lhe faz jeito, posso até oferecer-lhe o meu livro A Filosofia da Ciência de Paul Feyerabend (Piaget, 1998). Lá encontrará estas coisas explicadas com muito maior detalhe.
Comments
Não compreendo claramente porque razão assinala o tal blogue - De Rerum Natura - como sendo excelente se lhe encontrou os defeitos que aponta.
Estas incorrecções são ainda mais graves se nos apercebermos do grau de "pretenciosismo" que os autores assumiram nesse blogue desde o seu início.
Além de que, logo no primeiro post que fizeram apareceram dezenas de comentários críticos de pessoas que me pareceram muito melhor informadas do que o seu autor.
A minha noção de excelente não é esta.
Acho que a sua frase final deveria ser emendada para:
«um blogue QUE SE PROPÕE SER excelente como o De Rerum Natura devia cuidar do que lá se escreve»
Manuela Soares
Posted by: Manuela Soares | maio 26, 2007 11:40 PM
Bom dia, professor!
Gostei muito do texto referente a Feyerabend.
Será que poderia considerar a idéia original de Alessandro Volta p/ a construção da pilha como anarquista?
Explicando: Galvani, após realização de diversas experiências, concluiu que certos tecidos orgânicos geravam eletricidade por si próprios. Volta concordou inicialmente com Galvani, mas depois de alguns embates afirmou que a eletricidade gerada nos experimentos era fruto da união de metais diferentes. A radical mudança de pensamento de Volta em relação a uma mesma problemática não corresponderia a um anarquismo epistemológico proposto por Feyerabend?
Saudações,
Júlio.
Posted by: Júlio | maio 22, 2008 05:10 AM