Quando o desejo toma o seu tempo
Já está por aí o filme Lady Chatterley, realizado pela senhora Pascale Ferran, baseado numa das versões de "O Amante de Lady Chatterley", de D. H. Lawrence. Nada pretendo aqui acrescentar ao que milhões de críticos, encartados ou não, já contribuíram.
Apenas digo isto: este filme ajuda a pensar como os dias de hoje tornaram o desejo apressado, como a pressa consumista se equilibra mal com o feitiço do lento pormenor, do rendilhado das palavras e dos silêncios.
E, já que estou nisto, sempre acrescento: maridos confiantes, doutores e artistas, ponham os olhos no exemplo: o homem do bosque pode ter mais encanto do que a sofisticação saloia dos que se julgam os mais requintados da capoeira. E não se consolem com a cadeira de rodas: a pior "ineficiência" não é a paralisia dos membros inferiores, mas o embotamento dos espíritos altivos.

(Clicar para aumentar)
Apenas digo isto: este filme ajuda a pensar como os dias de hoje tornaram o desejo apressado, como a pressa consumista se equilibra mal com o feitiço do lento pormenor, do rendilhado das palavras e dos silêncios.
E, já que estou nisto, sempre acrescento: maridos confiantes, doutores e artistas, ponham os olhos no exemplo: o homem do bosque pode ter mais encanto do que a sofisticação saloia dos que se julgam os mais requintados da capoeira. E não se consolem com a cadeira de rodas: a pior "ineficiência" não é a paralisia dos membros inferiores, mas o embotamento dos espíritos altivos.
(Clicar para aumentar)
Comments
Honestamente e lamento entrar um pouco na crítica do filme, mas "esse mal" dos espíritos altivos nem sequer se percebe bem no filme! Essa força do Homem primitivo nasce no livro e em toda a obra de Lawrence (recomendo sobretudo a "Virgem e o Cigano" e o "Homem que tinha morrido", "Suns and Lovers"),! O filme é medíocre a esse respeito! Totalmente medíocre, discordo pois da sua interpretação que tal se sente no filme! Pareceu-me uma atracção vulgar, despegada de qualquer outro circunstancialismo!
Guilherme
Posted by: Guilherme | junho 19, 2007 01:10 PM
Caro Guilherme, não defendo que o filme seja uma poderosa racionalização da ontologia dos espíritos altivos, mas mesmo assim penso que está lá bem marcado o contraste entre o homem que a si mesmo atribui um carácter superior e o "homem dos bosques".
O que é uma "atracção vulgar"? Sentirei nessa expressão algum desconforto com o mostrar do desejo físico - o qual, obviamente, joga um papel essencial no filme? O esquema escolhido para mostrar o contraste essencial entre os dois homens pode até ser simplista, mas está lá: está na conversa final sobre a necessidade de solidão, que afinal até estava documentada nos antecedentes. Ora, essa "necessidade de solidão" do "homem dos bosques" é o grande contraste entre ele e o senhor da casa, que é um "homem de sociedade".
Tenho dificuldade em concordar que a mediocridade de um filme possa ser documentada por comparação com uma obra literária, porque a escrita e as imagens falam de modos diferentes - e, a meu ver, o filme mostra a força da atracção "vulgar" que pode exercer um homem "primitivo". (No que escrevo aqui, tudo vai nas aspas.)
Posted by: Porfírio Silva | junho 19, 2007 01:51 PM
O desejo físico e os traços primitivos são o que me impressionam mais no Homem pela positiva. Aliás julgo-nos animais! Não me incomoda nada! Mas o filme nada me transmite quanto a isso mesmo!
Parece-me isso sim exactamente o que me pôs na "boca", uma intelectualização do mesmo, um esforço para o captar...o livro sim é uma torrente de desejo!!! A linguagem não é certamente o início do mundo, mas quando a grafia é substituída sem pudores pela imagem, não serão comparáveis??
Guilherme
Posted by: Guilherme | junho 19, 2007 04:27 PM
Se reparar bem, o que critiquei com a expressão "atracção vulgar"
foi precisamente o juízo de valor (idealista) que fez sobre a mesma. Atracção é atracção sempre, as motivações interessam-me pouco porque parecem-me racionalizações/ ilusões. Neste sentido reafirmo, o filme falha!
Posted by: Guilherme | junho 19, 2007 04:34 PM
A imagem até pode ir (muito) mais longe,mas aí o cinema enfrenta um outro problema: a poluição.
Refiro-me à poluição das imagens que andam por aí todos os dias e que reduzem tudo ao substrato mínimo, ao significado mais reduzido, ao quase eliminar de qualquer espessura. O que acho interessante no trabalho da senhora Ferran é que é capaz de mostrar o desejo carnal sem o reduzir a uma animalidade simplista. O guarda-bosques é "físico" mas nunca atropela fisicamente aquela mulher. Nós somos todos animais, mas há animais de muitas espécies: aquela cena em que ele diz à mulher "esta foi a primeira vez que nos viémos juntos" - mostra bem que o desejo carnal não tem de ser animalesco e pode ser revestido de significado. O que acho bonito no filme é o ponto de equilíbrio (e de humanidade) que consegue construir nessa tensão.
Posted by: Porfírio Silva | junho 19, 2007 04:42 PM
Já agora: quanto à afirmação "Atracção é atracção sempre, as motivações interessam-me pouco porque parecem-me racionalizações/ ilusões", ainda acrescento qualquer coisa.
Isso é comportamentalismo (ou behaviourismo), quer dizer: não existe nada de relevante dentro da "máquina", o que interessa são os seus movimentos exteriores (comportamentos).
Ora, havia quem acreditasse nisso na primeira metade do seéculo XX, mas hoje é razoavelmente claro que essa é uma espécie um tanto ou quanto simplista (para não dizer quadrada) de materialismo.
Equacionar "racionalizações" com "ilusões" pode dar um ar moderno, ou de livre pensador, mas a mim parece-me mais, desculpa a expressão, ignorância: nunca ouviste falar no papel da "informação" no funcionamento da máquina? És dos que pensam que falar de "processos mentais" é idealismo? É por isso que equacionas "juízo de valor" com "idealismo"? As "ideias"(intenções, metas, cálculos, misturados com desejos e outras emoções) fazem com que a declaração "atracção é atracção sempre" seja ou vazia ou simplesmente errada, porque há muitas atracções e muito misturadas com muitos outros processos corporais e mentais.
Já agora "atracção é sempre atracção e ponto final" daria talvez um Emannuelle, mas não este filme. Salvo melhor opinião, é claro.
Desculpa lá, Guilherme: é que eu adoro fazer figura de "reaccionário" com comentadores "radicais"! Mas isto é falar, claro.
Posted by: Porfírio Silva | junho 19, 2007 06:23 PM
Curiosamente e digo-o muito satisfeito estamos em sintonia, porque me veio à cabeça o Emannuelle... Estou realmente surpreendido!
Acho que merecemos um abraço.
ps: O problema com a sua avaliação do filme é que parece hierarquizar esse desejo acima do transmitido no Emannuelle. Vejo-os diferentes e tão iguais ao mesmo tempo!
Um abraço.
Posted by: Guilherme | junho 20, 2007 04:10 PM