Não devias ter insistido para eu tirar o vestido

(Ponte de Lima, Setembro de 2006. Foto de Porfírio Silva)
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(Ponte de Lima, Setembro de 2006. Foto de Porfírio Silva)

Nos hutongs de Pequim, uma miniatura de um guerreiro de terracota de Xian esquecida num canto de uma janela.
(Foto de Porfírio Silva. Outubro de 2006.)
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Mon père
Mon père,
não sei porque te chamo assim,
não falavas francês,
mas isto provavelmente terias entendido,
talvez eu to diga numa língua estrangeira
por causa da distância,
conseguíamos amar-nos
apenas assim:
não muito de perto.
Estávamos sentados
em velhas tabernas,
bebíamos um riesling
ou um šipon
ou, mais frequentemente,
qualquer vinho ácido,
falávamos
das coisas muito comuns.
A vida parava
por de trás das portas,
numa distância segura.
Parecia impetuosa demais
para lhe dar um nome.
Tínhamos medo,
mon père,
das palavras fortes demais.
Agora és apenas
uma foto na parede
e uma tumba num bonito cemitério.
Acendo-te uma lamparina,
trago-te flores.
Não a ti,
aos teus ossos.
Conto-te
tantas cousas.
E tu calado.
Apenas a tua lápide.
Com as datas.
De – a.
Meu Deus,
que cousas os filhos não dizem
hoje aos pais.
Aos vivos e aos mortos.
Mon père,
nenhum era
como tu.
Tão só,
tão meu,
tão pai,
perdido neste mundo
como eu.
Kajetan Kovič
(tradução de Želimir Brala) in Litterae Slovenicae / Slovenian Literary Magazine, 2 – 1999 – XXXVII – 95 – Número integralmente em português, dedicado a “Nove poetas eslovenos contemporâneos” (pp. 21-22)
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Olores
En la mañana de todos los días
el olor excitante de hierba seca,
el sabor de orujo,
el olor húmedo de bodega
y la luz terrosa
del sueño repentino
cuando siluetas blancas de los muertos
esperan delante de la puerta
y como perros humildes
husmean la casa y el umbral
y el vestíbulo oscuro
donde los muchachos a las primeras horas de la tarde
sienten el escalofrío y el pavor de las muchachas.
Kajetan Kovič
(tradução de Nina Kovič) in Litterae Slovenicae / Slovenian Literary Magazine, 2 – 1997 – XXXV – 91 – Número integralmente dedicado à poesia de Kajetan Kovič (p. 93)
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Para enquadramento: «A poesia de Kajetan Kovič considera-se o marco divisório, erguido em ambas partes, que representa a passagem da poesia tradicional para a poesia moderna. Kovič faz parte do grupo dos poetas que publicaram “Permi štirih” (“Os Poemas dos Quatro”), a compilação que introduziu “o intimismo” e a postura poética apolítica que acabou por ser entendida, porque se afastou do realismo social e adrede tomou a atitude contra “a poesia de alvião” que pateticamente glorificava o trabalho e a colectividade e onde quase sempre figurava o sujeito “nós”, como um acto político.» (Matej Bogataj)
A reforma do estado social não é exclusivamente, nem sequer principalmente, uma questão de despesa. O estado social em Portugal não pode, por enquanto, gastar menos: tem, ainda, de gastar mais, porque ainda é muito fraco. A reforma do estado social tem de ser capaz de responder à necessidade de produzir mais riqueza nacional, e produzi-la de forma mais acelerada. Isso passa por reformar as condições de operação das estruturas produtivas.
Num país onde a qualificação média dos empresários é inferior à qualificação dos empregados, não é possível vencer a batalha da produtividade. A esmagadora maioria das empresas portuguesas tem má gestão, gestão virada para a sobrevivência imediata, quando não para o mero interesse particular dos patrões. Esse é o preço elevado que se paga pela demagogia da prioridade às PME. Nos demais países europeus, PME são empresas com 500 trabalhadores e mais. Em Portugal estimamos muito uma quantidade enorme de empresas minúsculas desprovidas de qualquer racionalidade económica. Os próprios fundos comunitários foram massivamente delapidados a ajudar empresas sem qualquer viabilidade económica, que seria melhor terem desaparecido, em vez de terem servido para criar empresas mais modernas e mais fortes, com emprego mais qualificado e produzindo para mercados mais exigentes.
Precisamos de um choque de gestão, sem o qual o choque tecnológico não serve para nada. É preciso que tanto os empregadores como os trabalhadores compreendam que aumentar a produtividade significa gastar menos tempo para fazer as mesmas coisas, fazer melhor as mesmas coisas melhor e fazer coisas melhores. E esse objectivo depende, em larga medida, da gestão. Na verdade, os principais empecilhos não são os trabalhadores, mas os gestores.
Contudo, isso implica, também, que os trabalhadores aceitem acordos relativos à organização do trabalho que satisfaçam as necessidades objectivas da produção e da comercialização, que tenham em conta a variabilidade do mercado e os interesses dos clientes. E, então, será justo que os trabalhadores obtenham contrapartidas adequadas à sua cooperação. Mas, mais uma vez, é preciso modificar o tipo de negociação laboral existente, deixando de centrar tudo nas questões salariais e insistindo noutras questões de interesse para a qualidade de vida dos trabalhadores. Por exemplo, oportunidades de qualificação, tempo de trabalho, condições de trabalho.
Para que o país possa encontrar soluções justas (socialmente eficientes) adaptadas às diferentes situações, é preciso verdadeiro envolvimento dos interessados. A irrelevância do sindicalismo português é um dos grandes problemas dos trabalhadores. Uma parte importante do esquema de funcionamento do tão mencionado estado social dos países nórdicos é o muito elevado nível de sindicalização. Nessas condições, a negociação faz sentido e tem consequências. É preciso que as leis do estado social sejam menos impositivas, no sentido de deixarem aos parceiros sociais mais espaço para encontrarem soluções adequadas aos seus circunstancialismos. Mas, para isso, é preciso que as organizações tenham verdadeira implantação, sejam representativas. E que faça uma diferença estar sindicalizado ou não.
Por outro lado, é preciso diversificar os níveis de negociação. Para além da escala macroscópica (as estruturas de topo dos patrões e dos empregados discutem questões gerais ao nível nacional na concertação social), é preciso revitalizar a escala microscópica (mais poder e dinamismo às comissões de trabalhadores a nível da empresa) e criar um novo papel para a escala mesoscópica (a escala média, por exemplo com negociações ao nível regional e/ou sectorial).
A estratégia central da oposição às reformas encetadas pelo actual governo assenta na noção de “direitos adquiridos”. Trata-se de uma estratégia típica da esquerda conservadora, mas é uma estratégia puramente defensiva (destina-se apenas a evitar a perda de regalias já conquistadas), insensível à mudança de contexto (uma nova situação pode tornar preferível novos direitos, mas essa lógica cai fora da estratégia dos direitos adquiridos). Assim sendo, é uma estratégia que se torna necessariamente obsoleta.
O que precisamos é de um regresso à velha utopia “a cada um segundo as suas necessidades, de cada um segundo as suas possibilidades”. Isso significa que precisamos de uma dinâmica evolutiva da equação direitos/deveres, atenta aos novos privilégios e às novas exclusões.
Exemplo: porque é que um rico e um pobre hão-de pagar o mesmo (ou praticamente o mesmo) para aceder a cuidados de saúde? O princípio da gratuitidade tendencial da saúde pertence a uma estratégia fixista, de “preservação de direitos”, mas é um princípio injusto. A certo momento, o principal argumento para manter essa situação era a ineficácia do controlo do rendimento, mas essa situação evoluiu bastante e pode evoluir mais. A lógica dos direitos adquiridos, ou qualquer lógica defensiva e igualitarista, é injusta e ineficaz. É preciso substituí-la por uma lógica de adequação às necessidades e possibilidades de cada um: cuidados de saúde de qualidade elevada para todos, gratuitos para quem precisa e não pode pagar, bem pagos por quem pode pagar. É preciso levar mais longe a estratégia de diferenciação das prestações sociais.
Quer isto dizer que a a estratégia dos direitos adquiridos é inútil? Não, ela serve para evitar o retrocesso social generalizado imposto por um sector da sociedade contra outros sectores. Para conciliar as duas coisas (progresso social e adequação aos novos contextos), o que é necessário é que as novas soluções sejam obtidas por um diálogo social aprofundado. Aí temos outro problema de fundo.

...Polska ... raiz quadrada do número de habitantes ...(será que ele se julga a raiz quadrada do par de gémeos?)
(Cartoon de Marc S.)


Está praticamente bom. Só falta o "praticamente".

Jake e Dinos Chapman, Tragic Anatomies (foto de)

Eles vêm aí de novo. Alerta, pois. Para ir ajeitando os nervos, fica uma das clássicas deles.
push down
gently
but firmly
until the body is fully connected
by touching
a grounded metal surface
firmly
until the body is fully connected
(excerto de “Fully Connected”, do álbum No Waves dos Micro Audio Waves)

O programa dispõe de um dicionário de palavras-chave, que permite determinar se alguma das palavras contidas numa frase inserida pelo utilizador é uma palavra-chave. O utilizador pode inserir, de uma só vez, mais do que uma frase ou uma frase composta, mas o ELIZA só pode transformar uma frase simples de cada vez. Por isso, quando analisa uma inserção do utilizador e encontra uma vírgula ou um ponto final, se já encontrou até aí uma palavra-chave ignora tudo o que aparece a seguir a esse sinal de pontuação; se ainda não encontrou nenhuma palavra-chave, apaga tudo o que “lera” até aí e concentra-se no restante. Se numa entrada não encontra nenhuma palavra-chave, o ELIZA ou retoma um tópico anterior ou responde com uma frase do género “Porque é que pensa assim?”, destinada a ter cabimento em qualquer contexto.
Weizenbaum explica que escolheu o psicoterapeuta como o seu “personagem” porque a entrevista psiquiátrica lhe pareceu um dos poucos exemplos de comunicação em linguagem natural com dois intervenientes em que parece natural, para uma das partes, a pose de quase completa ignorância acerca do mundo real. Quando um paciente diz “Fui dar uma grande volta de barco” e o psiquiatra responde “Fale-me de barcos”, não pensamos que ele seja ignorante acerca de barcos, mas que ele tem algum objectivo em mente para orientar a conversa desse modo.
Weizenbaum é muito claro ao afirmar: os pressupostos são lá postos pelo humano; quem atribui conhecimento e inteligência ao seu interlocutor é o humano. Neste caso, o autor do programa é completamente transparente: mostra toda a operação interna do ELIZA e explica que, além dos truques relativamente simples que lá colocou, tudo o resto é fornecido pelo humano utilizador.
Amanhã veremos as reflexões que ELIZA mereceu a Weizenbaum alguns anos mais tarde.
Esta é a imagem da próxima presidência portuguesa (do Conselho) da União Europeia.
Está no sítio da mesma.


(Foto de Porfírio Silva)

(Foto de Porfírio Silva)
