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Mesmo num filósofo, mesmo num amigo, o atrevimento da ignorância é uma vergonha

Desidério Murcho é uma pessoa que eu prezo, desde os tempos em que fomos colegas de faculdade. Além disso é um filósofo, menos dogmático hoje do que já foi no passado. Com vistas mais largas hoje do que já teve no passado. E muito competente naquilo de que se ocupa profissionalmente. Por isso tudo me custa muito dizer o que a seguir tenho de dizer.
Desidério Murcho escreve hoje no blogue De Rerum Natura um post intitulado A tia do "eduquês". O objecto imediato do dito post é a chamada "Área de Integração", que é, para simplificar sem faltar à verdade, uma disciplina dos cursos das Escolas Profissionais. Não vou entrar propriamente nessa matéria. Limito-me a ler o que o autor escreve sobre o próprio Ensino Profissional, dessas Escolas Profissionais assim visadas.
Escreve Desidério: «Recorde-se que este é um programa para os filhos dos pobres, que são demasiado estúpidos, no entender do ministério, para seguir a escolaridade dos outros: irão assim optar por uma ilusória escolaridade profissionalizante, que nenhuma profissão irá proporcionar, excepto as mesmíssimas profissões não especializadas — e mal pagas — que eles teriam sem tais cursos. Seria menos mau se realmente se ensinasse uma profissão aos adolescentes dos cursos profissionais — qualquer coisa de palpável. Mas não só não se irá ensinar tais coisas, porque a escola não tem competência para isso, nem há necessidade de a ter, como se procura complementar tais cursos práticos com uns pós de “cultura”.»
Lamento dizer-te, Desidério, meu caro, pessoa que estimo, que estas tuas afirmações revelam pura ignorância. Quando falas em "ilusória escolaridade profissionalizante" não sabes o que dizes, falas de cor. Quando dizes que tal escolaridade "nenhuma profissão irá proporcionar", é certo que ignoras o que se faz nas Escolas Profissionais. Quando dizes que as Escolas Profissionais atiram as pessoas para "profissões não especializadas e mal pagas", revelas não ter feito os trabalhos de casa.
Quantas Escolas Profissionais conheces? Não digo entrar pela porta dentro e visitar as instalações, digo conhecer. Saber o que se ensina, quem ensina, quais são as saídas profissionais, o que fazem os alunos depois de diplomados, que profissões vêm a ter, que carreira escolar têm a seguir, para que empresas vão e o que lá fazem, o que ganham e como progridem, que outros estudos fazem a seguir. Alguma vez fizeste isso ou limitas-te a ler programas e a desenvolver as tuas preferências teóricas pré-formadas e politicamente condicionadas? Tens alguma ideia do que as Escolas Profissionais significaram e significam em termos de renovação da educação em Portugal? Alguma vez visitaste empresas onde trabalham ex-alunos das Escolas Profissionais?
Meu caro Desidério: sei do que falo, porque trabalhei no sistema e porque estudei as suas glórias e misérias. Não me vou alongar em pormenores, porque tenho mais do que fazer do que explicar-te tim-tim-por-tintim tudo aquilo que devias saber antes de abrires a boca sobre coisas que, pelos vistos, não conheces. Não me pagam para isso. Mas lamento - não a tua ignorância sobre esse ponto, porque não temos de saber de tudo - mas que embarques com os que se fazem passar por entendidos em domínios que, manifestamente, ignoram.
Custou-me escrever isto, caro Desidério. Espero que a sinceridade seja considerada um atributo da amizade.

Comments

Um texto que merece ser divulgado...
Coloquei o teu Blogue "Em destaque" no COGIR.
Abraço

Mais uma prova da diferença de classes em Portugal...é incrivel ver a opinião que as elites têm da plebe.

Apesar de ter um diploma quase inútil (para ser optimista) em filosofia, também tive uma experiência num curso profissional. Depois de ter sido corrido de um emprego na indústria das tintas, basicamente por causa da minha formação académica (apesar de ser bom no que fazia e apesar do desconhecimento total que os "técnicos de recursos humanos" tinham das situações reais, do trabalho nas lojas (como podem?), fiz um curso básico de técnicas de joalharia pelo iefp. A minha companheira faz cinzelagem e pratarias e na altura decidi que seria bom ter uma experiência alternativa. Foi de facto bastante enriquecedor.

Não partilho qualquer preconceito face a cursos dessa natureza, aliás, acho que faz falta enriquecer a cultura manual neste país. As pessoas saem da escola a saber escrever textos que elas próprias não percebem mas não são capazes de arranjar uma porcaria de uma torneira ou um candeeiro. Isto parece uma invectiva boçal contra o "teorismo" mas eu não posso ser suspeito de tal. Adoro a filosofia mais que qualquer outra área. Para mim só não existe separação entre as coisas, tão somente.

Bem, o que eu queria dizer é que, de facto, o problema muitas vezes não está nas escolas. Eu sei que no curso onde passei por aquela experiência há bons mestres e aprende-se bastante. As pessoas saem de lá realmente qualificadas para um trabalho especializado. Um bom prateiro ou ourives não é só um indivíduo que dá marteladas na chapa. É uma tarefa que exige sabedoria, tacto, até mesmo alguma ciência.

O problema é o nosso mercado de trabalho. Há imensas pessoas que saem daqueles cursos com qualificações que acabam em trabalhos não-qualificados, a trabalhar para indivíduos boçais que os exploram desabergonhadamente. Os cursos são ministrados por entidades ligadas às associações dos mesmos boçais, e por sua vez isto introduz mecanismos de menorização das pessoas, canalizando as competências para onde elas são mais "desejáveis", introduzindo distinções hierárquicas entre vertentes do mesmo curso...

O que estou a dizer talvez nao se aplique universalmente. Mas sei do que estou a falar no domínio específico em que falo. Esta experiência. Sei das coisas que acontecem diariamente, da pouca-vergonha a que as pessoas estão sujeitas só porque se parte do princípio que, desgraçadinhos, estão ali a mamar no subsídio pq não têm miolos nem papás, nem competência para mais.

Podia fazer aqui uma lista de situações deprimentes e lamentáveis que ocorrem em tais sítios... como trancar alunos à chava numa sala para não ter malta de batas sujas a andar no meio da exposição da indústria de ourivesaria local, cuja inauguração por acaso decorria ali, no momento, no centro. Coisas que não têm outra finalidade senão mostrar às pessoas "o seu lugar" na escala hierárquica. Coisas que as vão marcar no seu percurso para a vida, como "daimones" interiores a sussurrar-lhes a suposta inferioridade.

Abraço

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