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Machina Speculatrix
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(Cartoon de Marc S.)

MILHO "HERCULEX"
- É cada vez mais difícil encontrar milho não transgénico!
(Cartoon de Marc S.)
(Clicar para aumentar)
Se os elefantes podem nadar, porque é que Marques Mendes não pode aspirar a ser primeiro-ministro?

(A foto é da BBC.)


Façamos aqui uma pequena viagem psico-linguística.
άλήθεια (“aletheia”) quer em grego dizer aquilo que não se oculta, que se desvela, a verdade.

A editora de Zita Seabra, que publica o seu recente livro de dissidente comunista intitulado “Foi assim”, chama-se “Alêtheia”.
Saudades do “Pravda”?
Ou será que não reparou que a verdade tem certos problemas, sendo um deles aquele que se ilustra na foto abaixo, onde o que parece um cavalo tem rabo de peixe?

Aqui, o bebé-robot Kismet "diz" a frase "Do you really think so?" com o que se pretende serem diferentes expressões faciais e vocais:
Aqui, o robor Leo "aprende" o que é isso de "ligar os botões todos":
Aqui, o robot Jules "fala" com vocabulário emocional:
Aqui, o Babybot aprende a lidar com certos objectos:
O melhor é começar já a preparar as suas emoções para lidar com parceiros robóticos!
Acabei (só) agora de ler, de seguida, dois livros de dissidentes do PCP: de Raimundo Narciso, “Álvaro Cunhal e a dissidência da Terceira Via” (Âmbar); de Zita Seabra, “Foi assim” (Aletheia).
E assim continuo a minha cruzada a favor da BD... (O desenhador é o belga Etienne Schréder e o editor da versão portuguesa é a ASA. Publico a capa em francês, não por ter sido a primeira versão que li, mas porque os editores portugueses têm sempre muito medo de disponibilizar em linha amostras decentes dos seus álbuns.)
(1) Sou a favor da participação nas instituições políticas de cidadãos não inscritos em partidos políticos, nos termos gerais em que ela é possível actualmente. Isso inclui, para certos órgãos, listas independentes ou participação de independentes em listas partidárias.
(2) Sou contra o abuso das faculdades concedidas aos independentes por parte de militantes partidários descontentes com a patente que conseguem alcançar num dado momento (“como não me deixam ser o primeiro, demito-me e amanhã serei independente”), sempre facilitadas por uma comunicação social ávida de dizer mal da “classe política” (para quem os políticos de partido são maus e os que deixaram um partido, ou que de preferência tenham até deixado dois partidos, são bons – ou até nem são políticos).
(3) Entendo que as faculdades cívicas abertas ao concurso dos independentes nos actuais moldes deveriam ser sujeitas a um “período de nojo”: só se deveria poder ser “candidato independente” passado um ano sobre a desvinculação de um partido ou sobre o término de uma colaboração institucional formal com um partido (por exemplo, após o exercício de um mandato em representação de um partido).
Julgo que isso ajudaria a destrinçar os oportunistas (os que mudam de demónios para anjos da noite para o dia) dos que realmente querem continuar a servir a comunidade noutro estatuto, afastando as conversões de última hora, os arrependimentos milagrosos e as visões celestiais dos que, num estalar de dedos, nascem de novo sem mácula – para a gloriosa carreira de independente.
(A imagem é de De Chirico, Nostalgia do Infinito, 1913)





(1) As empresas têm de pôr qualquer coisa “do seu bolso” na balança dos pesos e contrapesos que estimulam e compensam o empenho dos trabalhadores. Não podem ficar no “todos fazem assim, nós também”. No texto de A.C., isso traduz-se, por exemplo, nos 22 dias “não trabalháveis” que a empresa “oferece” por ano aos trabalhadores. É uma “benesse” extra, mas que está pensada para ser uma almofada a que a empresa pode recorrer se o trabalho apertar: esses 22 dias podem ser de trabalho se isso for necessário e eles são distribuíveis por mais do que um ano (há um crédito actual transferível para o ano seguinte). Quer dizer: se a flexibilidade for pensada para responder a necessidades de produção, é natural que as empresas pensem em investir (mesmo financeiramente) nesses mecanismos.
(2) A flexibilidade não tem de ser “facilidade para despedir”. No texto de A.C. isso é claro: um dos pilares do acordo foi, precisamente, a garantia de um período plurianual durante o qual não haveria despedimentos. A flexibilidade deve ser, precisamente, um caminho para preservar e aumentar o emprego. Mais: a flexibilidade tem de contrariar as tendências para a precarização. O trabalho precário desqualifica as pessoas (as pessoas não podem investir em tornar-se mais produtivas) e desqualifica as empresas (adia permanentemente a qualificação dos seus recursos e está sempre a começar de novo, o que é típico da incapacidade de avançar).
(3) Estas dinâmicas de verdadeiro diálogo pressupõem “trocas”: eu dou e também recebo. Por exemplo: a Autoeuropa deu prémios aos trabalhadores (aqui parece que os trabalhadores ganharam); o custo do trabalho extraordinário ao sábado baixou de 200% para 100% (aqui parece que os trabalhadores perderam). As “trocas”, se tiverem um sentido económico, são interessantes para ambas as partes, porque a prosperidade de uma empresa que respeita o trabalho é também do interesse dos trabalhadores.
(4) É preciso pensar no futuro, não apenas no imediato: a aposta massiva em formação profissional de qualidade é que permitiu, no caso vertente, continuar a conquistar encomendas. O texto não diz, mas os períodos de formação já foram utilizados para absorver períodos mortos na produção.
(5) Os acordos mutuamente vantajosos têm de basear-se na racionalidade das opções: o que se faz tem de ter uma justificação, nunca resultar dos “caprichos do patrão”. A arbitrariedade tem de ser banida das relações entre pessoas: e as relações laborais são relações entre pessoas, não são relações entre peças de uma máquina. E isso faz-se pelo diálogo e pela negociação colectiva permanente e informada. Como bem sublinha A.C., na Autoeuropa há um diálogo permanente, reuniões semanais entre os representantes dos trabalhadores e a administração, onde esta presta adequadas informações fidedignas sobre a situação e o que está em causa. Não há aí a (in)cultura do segredo e da tentativa de desinformar os trabalhadores.
(6) Nada do que aconteceu na Autoeuropa resultou de qualquer obrigação legal. Resultou de parceiros responsáveis, com interesses diferentes, que souberam perceber o essencial e remar para o mesmo lado. Que é o que interessa na generalidade dos casos a todas as partes. E isso foi possível por os trabalhadores estarem organizados, serem capazes de tomar decisões e respeitá-las. E isso foi possível por a administração, “ensinada” por um modelo mais democrático de relações laborais, ser capaz de verdadeira negociação leal. É preciso dar mais força à representação do trabalho - e dar-lhe mais responsabilidade.
Agora, há um ponto em que discordamos de A.C. – quando parece que ele entende que nada disto que se passa na Autoeuropa é flexigurança. Pois nós achamos que ISTO É FLEXIGURANÇA. O que não é flexigurança é a arbitrariedade pretendida pelos maus empresários. Não façam aos maus empresários o favor de lhes dar de barato o que eles querem: o que eles querem é que as pessoas pensem que flexigurança é liberdade para despedir. Pode, a alguns, dar jeito, em termos político-partidários, confundir flexigurança com liberalização dos despedimentos, com mais arbitrariedade patronal. Mas, por uma vez, não ponham a política partidária (o interesse de criticar o governo) à frente de tudo. Seria preferível, a bem dos trabalhadores, explicar que os empresários é que estão a compreender mal o que quer dizer flexigurança. E que a flexigurança implica mais segurança – a par com mais flexibilidade. Como na Autoeuropa. Onde os trabalhadores jogaram o papel que a maior parte do movimento sindical demonstra ser incapaz de generalizar – quando, precisamente aqui, poderia estar “ao ataque” em vez de estar sempre “à defesa”.

("Sorte". Foto de Porfírio Silva.)

Mas há alguns anos que vem sendo desenvolvida outra abordagem. Em linhas gerais essa abordagem consiste no seguinte: tentar ligar directamente os centros cerebrais responsáveis pelo controlo do movimento a algum dispositivo que implemente a acção motora, sem passar pelas ligações normais do sistema nervoso. Isto é: como a paralisia resulta de uma interrupção das ligações entre o "comando" e os "executores" do movimento, tenta-se ligar directamente o "comando" (zonas do cérebro que dirigem o movimento) a algum órgão (artificial) que execute o movimento desejado.
Esses estudos de "controlo mental" começaram por ser feitos em animais não humanos, nomeadamente roedores e macacos. No seu aspecto geral, tal como tem vindo a ser investigada, a ideia é muito simples: quando "pensamos" em fazer qualquer movimento com a mão (por exemplo), esse "pensar" consiste em (ou está associado" a) uma certa actividade do cérebro, em certas zonas específicas do cérebro; essa actividade normalmente comanda certas partes do corpo, sendo que esses comandos são sinais enviados através do sistema nervoso; se se conseguir captar esses sinais de comando e endereçá-los a um dispositivo artificial, o pensamento pode comandar directamente um mecanismo exterior ao corpo.
Bom, o cérebro não comanda esses mecanismos artificiais directamente, "sem fios": há um "interface cérebro-computador", o qual capta sinais de actividade cerebral na superfície da cabeça (para isso implantam-se eléctrodos como se se estivesse a fazer um exame conhecido como Electro-Encefalograma) e esses sinais são captados por um computador que os endereça à acção pretendida. Numa experiência com macacos, por exemplo, um macaco olha para o monitor de um computador e, ao "pensar" em fazer certa coisa com os objectos que vê no monitor, alcança mesmo o resultado em que está a pensar. Vejamos um pouco mais em pormenor.
Numa fase inicial, o macaco olha para dois objectos no monitor e pode fazer duas coisas com eles: aproximá-los ou afastá-los, aumentar ou diminuir o tamanho de cada um. Isso é feito actuando sobre um "joystick", movendo-o de um lado para outro ou apertando-o com mais ou menos força. Nesta fase, o macaco usa a "ligação normal": são as suas mãos que executam o que o cérebro pensa, e é o que as suas mãos fazem que produz um resultado mecânico. Depois desta fase de treino, o controlo do que se passa no monitor passa para o interface cérebro-computador: a actividade de uma pequena região da rede neuronal do macaco é captada, enviada para o computador, interpretada pelos modelos da actividade normal do cérebro do mesmo indivíduo, sendo depois enviados (pelo computador) comandos para o que se passa no monitor. O macaco, mesmo nesta fase, começa por continuar a usar o "joystick", mas abandona-o quando percebe que produz os mesmos resultados apenas com o pensamento.
Seja o caso de um tetraplégico (quase totalmente paralisado, cf. figura mais atrás) que pretenda deslocar-se com uma certa autonomia em cadeira de rodas. Isso é possível: há cadeiras de rodas controladas com o queixo ou soprando num tubinho. Mas isso é difícil e cansativo e, portanto, de uso limitado. Começou a desenvolver-se uma alternativa baseada em "controlo mental": um "barrete de eléctrodos" a envolver o crânio capta os sinais eléctricos típicos de certas actividades cerebrais (os sinais que se captam nos electro-encefalogramas); a pessoa pensa em dar certos comandos à cadeira de rodas (avança, vira para a esquerda); essa actividade cerebral é captada pelo "barrete de eléctrodos" e interpretada por um computador; daí resulta a transmissão dos comandos apropriados para o motor da cadeira de rodas. Já há algum anos que, no esforço para implementar este processo, se tinha conseguido que uma pessoa desse certas instruções (avança, vira à esquerda, vira à direita) a um robot com rodas, apenas por "controlo mental". (Mais sobre isto na NewScientist. )
Mais recentemente conseguiu-se que uma pessoa paralisada, que normalmente se desloca em cadeira de rodas, interaja com um ambiente virtual.





Perfect Order. Recognizing Complexity in Bali, de J. Stephen Lansing, editado pela Princeton University Press, 2006. Este livro é o mais recente deste antropólogo, estudioso da forma particular como o sistema religioso e o sistema económico se entrelaçam na ilha de Bali, onde em certas regiões o cultivo do arroz e o culto da Deusa do Lago estão historicamente ligadas na mesma base institucional (a complexa rede de “templos da água”, geridos de forma mais ou menos cooperativa, aos quais cabe regular quer o culto religioso, quer a distribuição da água pela montanha abaixo e entre os cultivadores de arroz, quer a “democracia” das aldeias). Esta leitura faz parte dos meus estudos sobre as instituições, mas também irá contribuir para uma reflexão em curso acerca das relações entre ciência, sociedade e religião. Um livro que acompanha este, e que ajuda se for sendo lido ao mesmo tempo, é, do mesmo autor, “Priests and Programmers. Technologies of Power in the Engineered Landscape of Bali” (já de 1991).

A Grande Transformação. As origens da nossa época, de Karl Polanyi. Trata-se de uma tradução brasileira do grande clássico, escrito durante a Segunda Guerra Mundial, cruzando História, Antropologia, Economia Política. Este livro “explica” a formação da “sociedade capitalista”, uma sociedade onde a instituição “mercado” se separou das outras instituições sociais e onde se alimenta a ficção (ou a ideologia) de que o mercado é autónomo do resto da sociedade e é o padrão de referência que deve marcar o funcionamento de tudo o resto na vida das gentes. Este livro insere-se nas minhas leituras tendentes a enquadrar (histórica e filosoficamente) as origens da ortodoxia dominante em teoria económica. A seguir, se tiver coragem, seguirei com “Adam Smith – O conceito mecanicista de liberdade”, de Fernando Araújo, editado pela Almedina em 2001 (são 1493 páginas, oriundas de uma dissertação de doutoramento em Ciências Jurídico-Económicas na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa – isto é para calar aqueles que dizem que a minha é demasiado longa).

How the body shapes the way we think. A new view of intelligence, de Rolf Pfeifer e Josh Bongard, editado pela The MIT Press, 2007. Esta é uma leitura de actualização das minhas investigações sobre ciências do artificial. É mais uma das obras a explicar como a Inteligência Artificial cometeu o grande erro de pensar que a inteligência está “dentro da cabeça” - quando na verdade a inteligência é algo muito mais “corporal” e menos “lógico” do que a maioria pensava há alguns anos. O livro não é muito profundo para quem conheça bem o domínio, mas é um bom ponto de partida para quem queira saber as “maldades” que se andam por aí a fazer com robots a imitar os humanos (ou a tentar fintá-los).

D. Manuel I, de João Paulo Oliveira e Costa, edição do Círculo de Leitores, 2005. Esta biografia insere-se genericamente na minha tentativa de perceber melhor o século XVI português, e inscreve-se mais especificamente num projecto em que ando a ruminar há algum tempo... mas sobre isso não posso de momento dizer mais.

Merci Patron é um álbum de Banda Desenhada, do português que usa o pseudónimo Rui Lacas. Está publicada num editor francófono, Éditions Paquet, desde 2006, mas vai sair proximamente em português (e em Portugal). Estou a reler este magnífico livro. O excelente blogue Ler BD publicou um texto muito bom sobre esta obra. O próprio Lacas também tem um blogue, mas pobrezinho: vão ver, porque é capaz de estar para ser ressuscitado.

Gostaria que os autores dos seguintes blogues dessem continuidade a esta corrente de leituras: No Mundo, Arquelogia do Corpo, Cogir , Ciência ao Natural, Cyber Sapiens.

Neste país há quem entenda que instruir os funcionários públicos acerca de como detectarem como operam os corruptores, e para denunciarem as tentativas de corrupção, é incentivar a delação.
Neste país há quem ache que a proibição de “violação de correspondência”, proibição que serve para proteger um direito fundamental à privacidade, equivale a qualquer funcionário ter direito a receber a título pessoal a correspondência oficial que deveria ser dirigida ao seu serviço, dar formalmente entrada e ser distribuída para resposta por quem tenha essa responsabilidade. A ignorância de quem nunca teve que gerir nada, nem público nem privado, que não sabe o que significa garantir resposta dos serviços aos cidadãos e aos outros serviços, confunde as duas coisas, grita por “crime” e acusa de totalitarismo.
Neste país isto serve para reduzir tudo ao mesmo folclore. Passam-se coisas graves. Pode acontecer que se esteja a preparar uma reforma da legislação laboral que só interessa aos maus patrões, àqueles que querem todo o poder de dominar os trabalhadores mas são incapazes de usar os mecanismos existentes para produzir mais e melhor. Mas isso só se discute com chavões. Porquê? Porque a agenda “mediática” está preenchida por aqueles outros temas que fazem as delícias dos que gritam “vem aí a ditadura”.
O caso Alves Reis: falsificar instituições
Em poucos meses no ano de 1925 foram postas a circular em Portugal continental mais de cem mil notas falsas de 500 escudos. Essas notas falsas tinham uma particularidade notável: eram estritamente iguais às notas verdadeiras correspondentes. Eram do mesmo tipo de papel, tinham sido impressas com as mesmas tintas e pelos mesmos processos que as notas oficiais. Aliás, tinham sido impressas pela mesma rotativa, com as mesmas chapas e na mesma casa impressora que produzira as notas legais.
Os próprios peritos do Banco de Portugal tiveram ocasião de atestar repetidas vezes que as notas eram perfeitamente conformes. A transformação das notas “clandestinas” em dinheiro normal realizou-se por vários métodos, nomeadamente: compra de divisas no mercado negro, depósitos bancários prontamente levantados ou transferidos para outras contas poucos dias depois, compras de jóias, aquisição de autorizações alfandegárias para importação de bens pagos em divisas estrangeiras. A pressa com que tudo isso foi feito, em vários pontos do país, provocou uma avalanche de notas novas daquele tipo, o que em vários casos levantou suspeitas – que foram prontamente afastadas pelos serviços do Banco de Portugal em várias localidades, que atestavam sempre a perfeita legalidade das notas.
A certa altura, face à agitação da opinião pública em torno da questão, começando a tornar-se significativos os casos de recusa do público no recebimento dessas notas, o Banco de Portugal tomou pública posição oficial: a 6 de Maio desse ano, desmente em comunicado a circulação de notas falsas de quinhentos escudos, no qual sublinha que todas as que tinha recebido para exame e que tinham sido analisadas pelos seus peritos eram notas verdadeiras do Banco de Portugal, fabricadas na Waterlow & Sons.
Só no final do ano, quando as autoridades monetárias já estavam certas de que algo estava errado e procederam à verificação sistemática de milhares dessas notas, é que encontraram, entre seis mil notas conferidas, quatro duplicadas, isto é, que tinham a mesma matrícula. Algo tinha de estar errado – mas nem isso tornou menos impossível distinguir as falsas das verdadeiras. Por isso, foi decidido retirar de circulação as notas desse modelo, mas – a atestar mais uma vez a completa identidade material entre os dois conjuntos de notas – o Banco de Portugal mandou recolher (trocando-as por outras notas nos seus balcões) todas as notas de 500$00 Vasco da Gama chapa 2, por se confessar incapaz de distinguir as notas das diferentes emissões.
Havia, pois, notas falsas e notas legais – mas eram, do ponto de visto físico, rigorosamente iguais. Aliás, eram demasiado iguais. A casa impressora não achara estranha a encomenda de notas com a mesma numeração, porque fora “informada” de que este novo lote seria para circular na província africana de Angola, após posterior acrescento dessa menção às notas em tudo o mais idênticas às da metrópole. Mesmo assim, certas notas eram legais e outras eram falsas.
O cérebro da operação, que deu o seu nome ao escândalo, Alves dos Reis, elaborara o conceito desta fraude gigantesca ao ler um discurso do deputado Cunha Leal na Câmara dos Deputados. Nesse discurso, Cunhal Leal denunciava as “emissões surdas” de notas. As emissões surdas eram emissões de moeda decididas pelo governo à revelia das leis e do poder legislativo, isto é, sem estarem devidamente suportadas pelos diplomas legais devidamente aprovados para o parlamento com esse fim – ou mesmo decididas pelo Banco de Portugal sem o conhecimento atempado do próprio governo. Essa situação anómala tinha começado a ser gerada devido ao facto de não se respeitarem as leis relativas à cobertura da circulação fiduciária pelas reservas oficiais de ouro e prata. Ora, pensara Alves dos Reis, se o Banco de Portugal podia fazer “emissões clandestinas” de moeda, porque não haveria eles também de fazer outro tipo de emissões clandestinas? Num certo sentido, as emissões do Banco de Portugal que não tinham cobertura legal apropriada também eram fraudulentas, embora esse abuso estivesse mais entranhado na própria estrutura institucional que o deveria prevenir.
Note-se que o grupo de Alves dos Reis, com o dinheiro conseguido com esta “emissão surda” especial, criou um banco comercial (Banco Angola e Metrópole) e começou imediatamente a tentar controlar o Banco de Portugal, que era uma sociedade de capitais privados ( embora obrigado a normas legais específicas e com um governador nomeado pelo governo), cujas acções (pouco rentáveis comercialmente) estavam em geral nas mãos de famílias e empresas ligadas ao poder. Alves dos Reis pretendia obter no Banco de Portugal força suficiente para tornar “legais” as suas emissões “clandestinas” de notas.
É que, de facto, o que distinguia aquelas notas falsas das notas oficiais não estava nas próprias notas, na sua composição físico-química, em qualquer das suas qualidades materiais. A “única” diferença entre aquelas notas falsas e as notas legais era a sua inserção em certos aspectos da organização social do país, nas leis do país e na distribuição de competências que dessas leis decorria quanto a certas funções. A única diferença entre aquelas notas falsas e as notas da emissão regular era uma diferença institucional. O que Alves dos Reis se preparava para fazer não era falsificar notas, mas falsificar instituições.
(A informação básica sobre a série de acontecimentos que se narram acima foi recolhida em Francisco TEIXEIRA DA MOTA, Alves Reis – Uma História Portuguesa (4 volumes), Lisboa, Contexto Editora e Público, 1996)
Imagem de Nancy Burson, Scientific American, Dezembro 2003 ( ver mais do seu projecto artístico e interventivo em "There is only one race, the human one. The concept of race is not genetic, but social. There is no gene for race. The Human Race Machine allows us to move beyond differences and arrive at sameness. We are all one." )