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Machina Speculatrix

Este é o arquivo do Tema "4. Indirectas e Retorcidas" | Regressar à Entrada

agosto 14, 2007

Corpos

push down
gently
but firmly
until the body is fully connected

by touching
a grounded metal surface
firmly
until the body is fully connected

(excerto de “Fully Connected”, do álbum No Waves dos Micro Audio Waves)

agosto 13, 2007

O passado, esse estranho

«É óbvio que não deveria constituir uma surpresa por aí além descobrir que a história da nossa vida incluía um acontecimento, algo de importante, que desconhecemos por completo – que a história da nossa vida é em si mesma, e por si mesma, algo a respeito do qual sabemos muito pouco.»

Philip Roth, Casei com um comunista, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1999, pp. 26-27

agosto 09, 2007

Ciências da vida

«Se o Homem fosse imortal ainda não teria inventado a roda (poderias dizer).»

Gonçalo M. Tavares, Breves notas sobre ciência, Lisboa, Relógio DÁgua, 2006, p. 11

julho 31, 2007

Glórias do ciclismo

Le-podium-du-Tour-web.jpg

(Cartoon de Marc S.)

julho 27, 2007

Um detalhe que não interessa nada, excepto tudo

Vasco Pulido Valente escreve hoje no Público, sob o título "A produção de uma personagem", o seguinte: "Desde os debates da campanha para secretário-geral do PS que Sócrates não é Sócrates. Na sua inocência Alegre e João Soares continuaram a ser Alegre e João Soares. Sócrates foi transformado em primeiro-ministro por especialistas."
Por especialistas?! Oh senhor ex-deputado Vasco Pulido Valente: eu pensava que tinha sido pelo voto! Primeiro, pelo voto dos militantes socialistas, que o escolheram para candidato. Depois, pelo voto dos eleitores portugueses, que por ele deram maioria absoluta ao PS. Essa é a legitimidade que alguns cronistas não lhe perdoam.

julho 25, 2007

Transgénicos

Maize Herculex.jpg

MILHO "HERCULEX"

- É cada vez mais difícil encontrar milho não transgénico!

(Cartoon de Marc S.)

(Clicar para aumentar)

Alegre entrevista

Manuel Alegre escreve, em artigo de opinião com mais de uma página no Público, "contra o medo, liberdade". Terá, certamente, razão em algumas coisas. Também há estilos que não aprecio. Mas não tem, certamente, razão em tomar o particular pelo geral. Além disso, procuro uma qualquer sugestão de alternativa concreta a alguma política. Nada encontro. Palavras, só palavras, como de costume neste pensador.
No mesmo exemplar do mesmo jornal leio mais novidades sobre o que continua a acontecer na Madeira. Um tema de que muitos parladores sobre a liberdade se esquecem quando escrevem "contra o medo". Uma questão de prioridades, certamente.
Por respeito por Alegre volto a alguns dos seus poemas. Dos mais antigos. Quando soavam ao tempo futuro. Quando a personagem ainda não estava instalada como oráculo de um D. Sebastião que nunca virá - pela razão simples e talvez triste de que está apenas morto (o D. Sebastião).

Impossibilidades que não se confirmam (ou "uma palavra de conforto a Marques Mendes")

Se os elefantes podem nadar, porque é que Marques Mendes não pode aspirar a ser primeiro-ministro?

elefantes nadantes.jpg

(A foto é da BBC.)

julho 24, 2007

Mesmo num filósofo, mesmo num amigo, o atrevimento da ignorância é uma vergonha

Desidério Murcho é uma pessoa que eu prezo, desde os tempos em que fomos colegas de faculdade. Além disso é um filósofo, menos dogmático hoje do que já foi no passado. Com vistas mais largas hoje do que já teve no passado. E muito competente naquilo de que se ocupa profissionalmente. Por isso tudo me custa muito dizer o que a seguir tenho de dizer.
Desidério Murcho escreve hoje no blogue De Rerum Natura um post intitulado A tia do "eduquês". O objecto imediato do dito post é a chamada "Área de Integração", que é, para simplificar sem faltar à verdade, uma disciplina dos cursos das Escolas Profissionais. Não vou entrar propriamente nessa matéria. Limito-me a ler o que o autor escreve sobre o próprio Ensino Profissional, dessas Escolas Profissionais assim visadas.
Escreve Desidério: «Recorde-se que este é um programa para os filhos dos pobres, que são demasiado estúpidos, no entender do ministério, para seguir a escolaridade dos outros: irão assim optar por uma ilusória escolaridade profissionalizante, que nenhuma profissão irá proporcionar, excepto as mesmíssimas profissões não especializadas — e mal pagas — que eles teriam sem tais cursos. Seria menos mau se realmente se ensinasse uma profissão aos adolescentes dos cursos profissionais — qualquer coisa de palpável. Mas não só não se irá ensinar tais coisas, porque a escola não tem competência para isso, nem há necessidade de a ter, como se procura complementar tais cursos práticos com uns pós de “cultura”.»
Lamento dizer-te, Desidério, meu caro, pessoa que estimo, que estas tuas afirmações revelam pura ignorância. Quando falas em "ilusória escolaridade profissionalizante" não sabes o que dizes, falas de cor. Quando dizes que tal escolaridade "nenhuma profissão irá proporcionar", é certo que ignoras o que se faz nas Escolas Profissionais. Quando dizes que as Escolas Profissionais atiram as pessoas para "profissões não especializadas e mal pagas", revelas não ter feito os trabalhos de casa.
Quantas Escolas Profissionais conheces? Não digo entrar pela porta dentro e visitar as instalações, digo conhecer. Saber o que se ensina, quem ensina, quais são as saídas profissionais, o que fazem os alunos depois de diplomados, que profissões vêm a ter, que carreira escolar têm a seguir, para que empresas vão e o que lá fazem, o que ganham e como progridem, que outros estudos fazem a seguir. Alguma vez fizeste isso ou limitas-te a ler programas e a desenvolver as tuas preferências teóricas pré-formadas e politicamente condicionadas? Tens alguma ideia do que as Escolas Profissionais significaram e significam em termos de renovação da educação em Portugal? Alguma vez visitaste empresas onde trabalham ex-alunos das Escolas Profissionais?
Meu caro Desidério: sei do que falo, porque trabalhei no sistema e porque estudei as suas glórias e misérias. Não me vou alongar em pormenores, porque tenho mais do que fazer do que explicar-te tim-tim-por-tintim tudo aquilo que devias saber antes de abrires a boca sobre coisas que, pelos vistos, não conheces. Não me pagam para isso. Mas lamento - não a tua ignorância sobre esse ponto, porque não temos de saber de tudo - mas que embarques com os que se fazem passar por entendidos em domínios que, manifestamente, ignoram.
Custou-me escrever isto, caro Desidério. Espero que a sinceridade seja considerada um atributo da amizade.

É Natal, é Natal

Felizmente o tema da natalidade volta à superfície. (Lembram-se de quantos se riram do tema quando Guterres tentou colocá-lo na agenda política?) Começou, como tudo neste país, com mais dinheiro. É natural - e mexer na estrutura dos abonos é importante. Mas entretanto o tema já começou a avançar mais, com o alargamento da questão às estruturas de apoio ao quotidiano concreto dos cidadão que sejam pais (creches, por exemplo).
Mas é preciso ir mais longe: a precaridade no mercado de trabalho (nomeadamente dos jovens adultos) é um dos factores que mais dano causam à procriação em tempo útil. Todos os apoios que se inventem só valem para os que cheguem a ter os filhos - e muitos sabem que a paternidade e maternidade responsáveis são penalizadas pelo clima de "todos contra todos" que impera em largos sectores da vida activa, onde se procura extrair tudo a todo o preço de jovens profissionais em princípio de carreira. As protecções contra a discriminação profissional dos procriadores só funcionam correctamente quando enquadradas por relações de trabalho com uma estabilidade relativamente elevada. É por isso que promover a natalidade, que é uma necessidade urgente, também passa por combater a precaridade no mercado de trabalho.
Mais um ponto de reflexão para a flexigurança...

julho 23, 2007

Deixem-se lá de brincar aos anarquistas, pequenos irreverentes sem causas

Um desporto nacional actualmente na moda consiste em inventar (literalmente) os mais estrambólicos casos supostamente ilustrativos da sanha autoritária e liberticida do governo. A coisa é feita de modo a que nenhum cidadão em perfeito juízo, ou que pelo menos tenha uma ocupação que não seja detective, possa realmente "investigar" todas as acusações mirabolantes que qualquer um se digne confeitar.
Bom exemplo é este post de Sofia Bochmann no blogue Puro Arábica. Aí se pretende sugerir (embora ocultando-se essa pretensão por uma interrogativa), a propósito de um concurso para professor titular, que «um professor que realize e/ou participe em alguma acção, no âmbito do Direito à Liberdade de Pensamento e de Expressão, poderá ser alvo de uma exclusão de um concurso público da Função Pública».
O Apdeites V2 rapidamente mostrou a inanidade (ou mesmo a insanidade) da pretensão. Mas para isso teve de investir na investigação. Que nem sempre podemos fazer. A autora do disparate inicial, contudo, não parece ter ficado muito impressionada com a demonstração da burrada. Depois de saber que tinha escrito ficção política de má qualidade, em vez de esclarecer honestamente os seus leitores acerca do seu disparate, continua a chutar a bola para a frente como se não fosse nada de mais.
A irresponsabilidade cívica grassa, como se vê. O circo avança, agora, na pretensa defesa de uma liberdade pretensamente ameaçada. Se a estratégia é a da anarquia, podiam pelo menos aprender com os velhos anarquistas, que esses pelo menos tinham ideias na cabeça e coragem para serem consequentes. Não eram como estes "revolucionários" de pacotilha, conservadores escondidos na fraseologia "libertária".
Desculpem o azedume, mas não há pachorra...

A memória incomoda muita gente

Pedro Arroja irritou-se com o Museu Judaico de Berlim. Parece que acha inadmissível obrigarem os pobres dos alemães a recordar pequenos incidentes da sua história recente.
E depois, para não parecer que a sua irritação é muito particular sobre aquele museu e aquele país, escreve mais: «Como cidadão português, eu nunca aceitaria que a comunidade judaica em Portugal fosse colocar no centro de Lisboa um museu evocativo das perseguições que os judeus foram alvo no país - e estou persuadido que seria nisso acompanhado pela esmagadora maioria dos portugueses. Recomendaria que fizessem o Museu no centro de Telavive. Da mesma forma que compreenderia muito bem a recusa do povo judeu em deixar instalar no centro de Telavive um museu palestiniano evocativo dos abusos que o povo judeu tem cometido sobre o povo da Palestina.»
Certos indivíduos são prisioneiros do que consideram ser o seu "torrão natal", ou a sua "raça", ou a sua "nação". E por essa razão são incapazes de sentir a pertença à humanidade como algo que implica solidariedades mais vastas. Eu sinto-me identificado com as vítimas dos pecados da humanidade, mesmo que os executores tenham sido os meus compatriotas e as forças do meu país. Aliás, os candidatos a carrascos que mais ameaçam a minha própria liberdade são os que comigo partilham a mesma terra, por mais próximo estarem de um dia me deitarem a mão se isso lhes for conveniente.
Eu, por mim, acharia muito útil que houvesse em Lisboa ou em qualquer ponto do país uma memória das maldades que se cometeram na nossa história. E sentir-me-ia mais próximo daqueles outros povos que soubessem fazer o mesmo. E sinto-me muito longe destes que se incomodam tanto com a memória.

Zita Seabra e o problema filosófico da verdade

Façamos aqui uma pequena viagem psico-linguística.

άλήθεια (“aletheia”) quer em grego dizer aquilo que não se oculta, que se desvela, a verdade.



Pravda.jpg


Прaвда (“pravda”) quer, em russo, dizer “a verdade”. O “Pravda” foi o principal jornal da União Soviética e um órgão oficial do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética entre 1918 e 1991.

A editora de Zita Seabra, que publica o seu recente livro de dissidente comunista intitulado “Foi assim”, chama-se “Alêtheia”.

Saudades do “Pravda”?

Ou será que não reparou que a verdade tem certos problemas, sendo um deles aquele que se ilustra na foto abaixo, onde o que parece um cavalo tem rabo de peixe?


mulher-em-cavalo-peixe.jpg

(Os ingredientes principais vêm do último “Inimigo Público”. Eu só acrescentei os molhos. A foto é de Porfírio Silva.)

julho 20, 2007

Com patrões destes, a economia portuguesa não precisa de (mais) inimigos

Foi divulgada a Posição Comum das Confederações Patronais sobre o Quadro de Revisão do Código de Trabalho e respectiva regulamentação. Entre outras pérolas pretendem que a Constituição deixe de proibir o despedimento por motivos políticos ou ideológicos e pretendem limitar o campo de intervenção das estruturas de representação dos trabalhadores. Assim se vê que não estão nada preocupados com a economia, a produtividade ou a competitividade. Querem é ser, cada vez mais e com cada vez menos entraves, ditadores dentro das empresas que consideram seus feudos. Se visassem o melhor em termos económicos não andariam ao contrário das boas experiências que mostram que mais "humanidade" ajuda o melhor rendimento. Se pensam que isto pode ser apenas uma boa "táctica negocial" ainda não perceberam que, explorar por explorar, já há muitos países que fazem isso com mais limpeza: às claras, sem desculpas, sem rodriguinhos. Voltaremos a isto, outro dia.

Às armas, ou "de cócoras, companheiros, que a posição dá jeito"

O jornal Público todos os dias surpreende pela positiva - "pela positiva" no mesmo sentido em que se pode dizer que o teste do HIV deu "positivo".
Hoje escreve na última página, coluna "sobe e desce", para justificar a seta para baixo ao ministro Santos Silva, o seguinte: "Para defender a ERC ou o novo Estatuto dos Jornalistas, Santos Silva deita a mão à Constituição. Com uma arma deste calibre, avisa, podem vir mais críticas de comissários europeus que não se comove. Talvez acredite que, em termos de liberdades e garantias, a Constituição portuguesa é mais completa que a francesa, a sueca ou a alemã."
Primeiro, o zeloso jornalista acha que a opinião de qualquer Comissário europeu vale mais do que a Constituição portuguesa. Sim, porque não se trata de nenhum pronunciamento próprio da Comissão Europeia em matéria da sua competência, muito menos de uma decisão de um tribunal europeu. Trata-se de uma opinião pessoal da senhora Viviane Reding, que é Comissária europeia, mas que reconheceu, ao fazer as declarações em causa, que não estava a exercer nenhuma competência associada a esse estatuto. Estava, isso sim, a sentir-se na sua antiga pele de dirigente sindical. Nada disso importa ao jornalista: se o Comissário europeu dá umas bocas que nos interessam, essas bocas passam a valer mais do que a Constituição da República.
Segundo, o zeloso jornalista parece ter descoberto que preferia que a nossa República se regesse preferencialmente pelas Constituições francesa, sueca ou alemã. E aqui, para ser sincero, eu também tenho as minhas preferências: também preferia, em vez de ter os jornalistas da categoria do que subscreve aquelas palavras, ter a imprensa francesa ou alemã (a sueca não sei). É que, se assim fosse, não tinha de me sujeitar a ler todos os dias os disparates, ideologica e politicamente orientados, do Público.

julho 19, 2007

Private joke para eurocratas, actuais e ex

poupée gigogne.jpg

(Cartoon de Marc S.)
(Clicar para aumentar)

julho 18, 2007

Zita Seabra afinal se calhar não mudou muito

Em mais uma peça de uma polémica que anda por aí a propósito da criação do Serviço Cívico Estudantil a seguir ao 25 de Abril, Zita Seabra, hoje no Público, parece mostrar que afinal não mudou muito.
O título da sua peça é “Não sabia ter sido tão importante” e consubstancia-se na seguinte frase: “Não sabia que em 1974, com 24 anos, eu, “chefe” da UEC [União dos Estudantes Comunistas], mandava no Ministério da Educação.” Se não for pura hipocrisia, é amnésia: Zita Seabra sabe, melhor do que o comum dos mortais, que para um verdadeiro comunista à velha maneira quem manda é “o Partido”, não são os órgãos de Estado. Os militantes comunistas destacados no aparelho de Estado devem, para serem verdadeiros comunistas, limitar-se a executar a linha e as decisões do “Partido”. Portanto, a controleira da UEC podia perfeitamente mandar no Director-Geral, ou até no Ministro, desde que estivesse assim a fazer aplicar a linha do “Partido”. Basta ler o recente livro de Zita para estranhar que ela tenha esquecido isso.
Ou trata-se apenas de hipocrisia de quem se habituou a usar essa arma como forma de exercício da política? Infelizmente, essa hipocrisia parece continuar a estar no seu estojo de ferramentas. Mais à frente no mesmo texto discute-se se António Hespanha, militante comunista que era então director-geral do ensino superior, teria ou não concordado com o Serviço Cívico. O que Zita pretende, contra a tese de Luísa Tiago de Oliveira, é que Hespanha certamente concordou com tal medida – e não se pode pensar que teria discordado. O argumento é este: “(…) como é possível que não se tenha ouvido uma palavra de discórdia, um grito de dor? Ou o senhor professor queixou-se? Onde? Sendo certo que não se demitiu, será que foi obrigado a ficar à força director-geral? Por quem?” Zita Seabra quer fazer crer que tudo isso seria impossível. Mas não, não era. Era assim que se funcionava no universo comunista. E ela, Zita, continua apenas a usar os mesmos truques retóricos que na altura deveria usar como controleira.
Zita Seabra manipula o que as pessoas comuns pensam ser a normalidade. Argumenta como se ignorasse que certas coisas estranhas realmente aconteciam. Por exemplo, poderia fazer-nos pensar que seria impossível que ela, controleira de uma organização partidária de juventude, tivesse sido levada a Conselho de Ministros para aconselhar Álvaro Cunhal. Hoje acharíamos isso impossível. Mas aconteceu – pelo menos é o que ela diz. Ao mesmo tempo quer-nos fazer acreditar que eram impossíveis coisas que aconteciam todos os dias naqueles tempos e no “universo comunista”.
Nada me move especificamente contra os comunistas. Nem contra os ex-comunistas. Discordo ou condeno coisas concretas que se fizeram, se defenderam ou se toleraram, principalmente quando se possa falar propriamente de “cumplicidade”. Mas fazem-me impressão os ex-comunistas que parecem continuar a viver dentro do mesmo casulo retórico, com os mesmos tiques. Embora usando-os agora para outras artes.
Se calhar, afinal Zita Seabra não mudou muito.
Mas pode alguém, afinal, mudar?

julho 17, 2007

O Homem quê?

No livro Foi assim, de Zita Seabra, recentemente editado, fala-se, logo pelas páginas cinquenta e poucas, de um livro editado em 1978 pelas Edições Progresso, de Moscovo, da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O livro tinha por título O Homem Soviético: a formação da personalidade socialista. Escreve Zita Seabra que «era um livro de mera propaganda, no pior estilo comunista, demonstrando que já existia um “homem novo”, filho do socialismo soviético (...), dedicando-se o autor a “investigar” as premissas históricas e as condições sociais da formação do novo tipo social de personalidade – o assim chamado “homem soviético”».
Porque é que este “Homem Soviético” me terá feito lembrar o “Homem Económico”, essa ficção da teoria económica ortodoxa dominante?

julho 16, 2007

Cavaco Silva não gostou da campanha eleitoral...

... de Lisboa. Pelo menos é o que diz o Público de hoje.
Já agora, Cavaco Silva está a gostar do que se está a passar na Madeira?
Ou será que tem estado no Pulo do Lobo e não tem ouvido noticiários?

A abstenção de Lisboa nada tem a ver com as cegonhas (nem com as férias, é claro)

Há menos trânsito hoje nas ruas de Lisboa. Como tem havido menos trânsito nas ruas de Lisboa já há algum tempo. É da época, todos sabemos.
Ah, não, desculpem. É do desencanto com os políticos.
É que a abstenção não tem nada a ver com estarmos em meados de Julho. Pelo menos assim rezam os políticos que se bateram para ter eleições a 15 de Julho, em vez de dia 1. E que, é claro, não sonham sequer em assumir a sua parte de responsabilidade pelos efeitos da data sobre a afluência às urnas.

Posta para irritar os meus amigos de esquerda (ou "os caminhos ínvios das autárquicas em Lisboa")

As eleições Lisboa 2007 acabaram, passemos às eleições Lisboa 2009. Quer dizer: o que me interessa é já o futuro eleitoral de Lisboa. O que fará Costa em termos de alianças? Não sei, mas quero analisar a coisa na perspectiva das tendências eleitoras de longo prazo na cidade de Lisboa.
A existência de mais de 25% dos votos da capital em candidatos independentes significa que esta é uma oportunidade de ouro para tentar reestruturar o eleitorado de Lisboa. Pode ser que tenhamos entre mãos um fenómeno parecido com o proporcionado em tempos pelo PRD de Eanes ao nível nacional: uma fatia do eleitorado de esquerda votou PRD como voto de descolagem dos seus partidos tradicionais e nas eleições seguintes estava livre para votar na direita, no PSD de Cavaco - o que fez, dando a este a primeira maioria absoluta monopartidária.
Em Lisboa, o PS há quase 30 anos que tinha uma margem de manobra relativamente pequena: depois de Aquilino Ribeiro, em 1976, ficou durante muitos anos atrás dos comunistas quando concorria isolado. Com Sampaio, e as coligões de esquerda que este promoveu, e que João Soares continuou, e com o bom governo que essas coligações de esquerda deram à cidade, o PS progrediu mais de 10% no seu peso eleitoral permanente. Isso permitiu-lhe agora, em circunstâncias especiais, ficar em primeiro lugar - mas muito longe da maioria aboluta.
Como poderá António Costa aspirar a ganhar com maioria absoluta em Lisboa daqui a dois anos? Governar bem é condição necessária, mas não suficiente, para esse desiderato. Para aspirar à maioria absoluta daqui a dois anos, o PS e António Costa têm de aproveitar as possibilidades de reestruturação do eleitorado que as circunstâncias permitem. A maior fatia dessa oportunidade é o eleitorado de Carmona, que pode voltar ao PSD ou ser captado pelo PS na próxima volta. A lista de Carmona pode ter sido o atalho para uma fatia do eleitorado do PSD se juntar ao eleitorado do PS, libertando o PS da obrigatoriedade de fazer alianças à esquerda.
Não é que eu seja contra alianças do PS à esquerda em Lisboa. Aliás, dada a fragmentação política da capital, Lisboa provavelmente só será governável com estabilidade na base de alianças, PSD/CDS ou PS/PCP/BE. O problema é que a luta de morte entre o PCP e o BE em Lisboa, cidade onde o BE aspira a mostrar ao país que os "socialistas de esquerda" valem mais do que os comunistas, torna extremamente difícil de negociar uma nova e futura coligação de esquerda. Se o PS quiser, de futuro, ter a opção de tentar uma coligação de esquerda ou de tentar uma maioria absoluta, precisa de reestruturar profundamente o eleitorado de Lisboa durante estes dois anos. E o alvo dessa operação será, essencialmente, o eleitorado de Carmona Rodrigues.
Quer isto dizer que António Costa terá de coligar-se com Carmona para governar Lisboa? Não necessariamente. Mas terá, certamente, de visar o objectivo de esvaziar Carmona e ficar-lhe com o eleitorado. O que passa, certamente, por não o erigir em principal inimigo. Coisa que, dita assim com esta clareza, faz com que os meus amigos de esquerda se irritem comigo e repitam tudo o que se sabe sobre Carmona. E que eu insista: estão já todos a pensar em 2009. António Costa também. E faz bem, porque não é em dois que vai mudar grande coisa. Dois anos vão dar apenas para mostrar que é ele quem pode fazer melhor. Para a seguir pedir que lhe dêem condições para isso. A campanha eleitoral, a campanha eleitoral mais longa e mais importante dos últimos quinze anos em Lisboa, está só a começar. E vai durar dois anos.

julho 13, 2007

BD, outra vez

A partir do romance de Jean Vautran, o desenho ao mesmo tempo enxuto e barroco de Tardi, Jacques Tardi. (Como pode isso ser, ao mesmo tempo enxuto e barroco? Barroco no rendilhado de todos os pormenores, até das letras dos "balões"; enxuto no a preto e branco, bem como nas emoções que transmite.) Sobre a Comuna de Paris. Coisas velhas. Ou talvez nem tanto. Ficam as capas dos quatro volumes originais (em francês, pois).

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julho 12, 2007

Hipocrisia, a dos hipócritas e a dos que por ela se babam

O jornal Público de hoje escreve: "As declarações de Cavaco Silva ontem no Alentejo demonstram que o Presidente da República não tem sido insensível ao clamor de cidadãos e instituições perante os sinais de asfixia das liberdades. Essa atitude é positiva e útil, pois o Presidente da República não pode deixar de transformar em actos a sua preocupação com a qualidade da democracia portuguesa."
Pergunto, primeiro: não é este Cavaco Silva o mesmo que, enquanto primeiro-ministro há uns anos atrás, inaugurou a prática generalizada e sistemática de varrer das chefias da administração pública tudo o que não tivesse o adequado cheiro a laranja?
Pergunto, segundo: se pudessemos comparar a lista dos colaboradores que o jornal Público tinha há um ano atrás e a lista dos colaboradores desse jornal hoje, e se pudessemos concluir que, na "renovação", certas opiniões tinham sido preferidas sistematicamente enquanto outras opiniões tinham sido sistematicamente preteridas - também poderíamos falar de asfixia da liberdade?

julho 07, 2007

O tipo que escreveu que ele esmagou uma revolta de operários e marinheiros, é um delator

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O tipo que escreveu um livro a dizer que ele batia na mulher, é um delator

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julho 06, 2007

Será este o estado do debate público em Portugal?

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julho 03, 2007

Vem aí a ditadura?

Neste país há quem entenda normal que os utentes dos serviços públicos sejam expostos, nesses mesmos serviços públicos, a propaganda política. Em particular, há quem entenda normal que os pacientes que se dirigem a um serviço de saúde tenham de gramar com propaganda contra o ministro da saúde. Em particular, há quem entenda que se eu tiver de me dirigir ao SAP de Vieira do Minho tenho de aceitar de bom-grado que lá esteja exposta uma entrevista do Ministro da Saúde com o seguinte comentário anexo: «Atenção! Você está num SAP! Fuja! Faça como o Ministro da Saúde deste pobre País – Corra para a urgência de Braga!». É claro que se o ministro da saúde tivesse mandado afixar, ele próprio, a sua entrevista, seria acusado de culto da personalidade ou de qualquer malfeitoria parecida.

Neste país há quem entenda que instruir os funcionários públicos acerca de como detectarem como operam os corruptores, e para denunciarem as tentativas de corrupção, é incentivar a delação.

Neste país há quem ache que a proibição de “violação de correspondência”, proibição que serve para proteger um direito fundamental à privacidade, equivale a qualquer funcionário ter direito a receber a título pessoal a correspondência oficial que deveria ser dirigida ao seu serviço, dar formalmente entrada e ser distribuída para resposta por quem tenha essa responsabilidade. A ignorância de quem nunca teve que gerir nada, nem público nem privado, que não sabe o que significa garantir resposta dos serviços aos cidadãos e aos outros serviços, confunde as duas coisas, grita por “crime” e acusa de totalitarismo.

Neste país isto serve para reduzir tudo ao mesmo folclore. Passam-se coisas graves. Pode acontecer que se esteja a preparar uma reforma da legislação laboral que só interessa aos maus patrões, àqueles que querem todo o poder de dominar os trabalhadores mas são incapazes de usar os mecanismos existentes para produzir mais e melhor. Mas isso só se discute com chavões. Porquê? Porque a agenda “mediática” está preenchida por aqueles outros temas que fazem as delícias dos que gritam “vem aí a ditadura”.

junho 28, 2007

Funcionários

Os funcionários que se apurem responsáveis pelos erros nos enunciados de certos exames realizados sob a tutela do Ministério da Educação poderão ter avaliação positiva neste ano? E poderão ser promovidos para o ano?

Referendo

Há uns anos, que já começam a ser umas décadas, uma certa esquerda criticava a "democracia burguesa" pretendendo que ela era apenas "democracia formal". Alguma dessa esquerda achava melhor a "democracia" do "socialismo real". De qualquer modo, o ponto era a ideia de que a democracia representativa não era uma verdadeira democracia por lhe faltar participação "directa".
A mesma temática volta hoje com a pretensão de que certas medidas políticas são ilegítimas se não forem referendadas. Desta vez, alguma esquerda e alguma direita estão juntas no mesmo ataque à "democracia burguesa": pretendem esses que os órgãos representativos, eleitos nos termos constitucionais, não têm legitimidade para aprovar aquilo que está nas suas competências, competências essas que estão definidas constitucionalmente, numa constituição que foi aprovada por pelo menos 2/3 dos deputados, deputados esses que foram eleitos democraticamente.
Brincar com a democracia, procurando desligitimar os seus órgãos representativos, é um jogo perigoso. Mas a que alguns brincam.

junho 26, 2007

Berardo e etc. e tal numa república das bananas à beira do charco plantada

Expresso online: "O presidente do CCB sai do Museu Colecção Berardo horas depois do empresário o acusar de "estar a brincar" e de pedir o seu afastamento."
O senhor Berardo é um dos mais recentes candidatos a comprar todo o país com o desplante da arrogância que alguns pensam que o dinheiro justifica. Isto no dia a seguir à grande comemoração pública de um frete que o Estado português fez ao senhor, empurrado por mais uma daquelas campanhas a que se presta uma comunicação social saloia (refiro-me à inaguração do museu berardo, o bicho que agora parasita o que de bom se poderia fazer naquele espaço). Como de costume, Mega Ferreira mostra que não fica de cócoras, mesmo quando o Estado se põe de cócoras.

junho 25, 2007

Transparência europeia

A campanha, "soberanista" ou de "esquerda", contra o "Tratado Constitucional" europeu, vivia em grande parte do seguinte dispositivo: atacar coisas que já existem, há muitos anos, como se fossem novidades desse tratado. Porquê? Porque o tratado juntava todas as disposições dispersas por diversos tratados anteriores, que passariam a constar num único texto, com princípio, meio e fim - e que assim seria muito mais fácil de "ler". As oposições mais primárias atacavam então o que aparecia no novo tratado, que eram em geral coisas apenas "copiadas" do ordenamento já existente. Isso permitia também esquecer várias coisas novas, e boas, que também lá estavam.
Assim se explica que uma das novidades do novo "tratado de funcionamento" é que este já não terá esse aspecto sistematizador: será apenas uma lista de "onde se lia X passa a ler-se Y". Muito difícil de compreender para quem não domine o que já consta dos anteriores tratados. Mas nada inconveniente para os eurocratas, que já usam no dia a dia uma coisa chamada "Tratados Consolidados": uma espécie de tratado único construído com todas as alterações acumuladas. Teremos, portanto, um tratado "menos transparente", por assim dizer. Mas apenas porque a demagogia anti-europeia gosta pouco de discutir a substância e prefere o espalhafato verbal.
Essa é, aliás, a mesma razão pela qual todos têm opinião sobre referendar ou não referendar o futuro tratado, embora em geral se preocupem pouco em discutir o concreto das próprias disposições em causa. Porque é difícil fazer demagogia com matérias complexas. E a demagogia só gosta de assuntos a preto e branco, fugindo como o diabo da cruz de qualquer cena a milhões de cores - ou mesmo a 256 tons de cinzento.
Reform Treaty.JPG
(Cartoon original de Marc S.)

junho 23, 2007

Ficar de segunda

Segundo o Expresso de hoje, o governo espanhol pretende que o TGV, entre Badajoz e Madrid, circule apenas a 250 Kms/h, em vez dos 350 kms/h que podia ser. Por isso, o Partido Popular da Extremadura acusa Zapatero de estar a fazer uma "alta velocidade de segunda".
Curioso: em Portugal toda a oposição e parte significativa da opinião publicada parece querer tudo de segunda. Um TGV de segunda, um aeroporto de segunda, ... Estamos próximo daquela teoria de Durão Barroso: enquanto houver uma criancinha numa lista de espera, não há um tostão para essas obras públicas que são só sumptuosidade...
A que apelam estes discursos "poupadinhos", mesmo daqueles que são responsáveis directos pelas decisões que agora criticam? Apelam à inveja: se eu não vou de avião para lado nenhum, para que quero um aeroporto; se eu não vou para Madrid, que me interessa estar ligado em rede de alta velocidade à Europa. Essa é a matriz do discurso do pobrezinho, precisamente o discurso que nos afirma mais e mais como pobrezinhos. Se fosse mesmo preocupação pela melhor decisão, teriam esperado tantos anos para meter a mão na consciência?

junho 22, 2007

Notícias da delegação da Polónia ao Conselho Europeu

Racine carrée du nombre d'habitants.JPG

...Polska ... raiz quadrada do número de habitantes ...(será que ele se julga a raiz quadrada do par de gémeos?)

(Cartoon de Marc S.)

junho 21, 2007

Ricardo II

Ricardo II, de William Shakespeare traduzido por Fernando Villas-Boas, encenado por Nuno Cardoso, no Teatro Nacional D. Maria II. Com todos os campos de batalha representados por campos de futebol (um dispositivo simples, talvez simplista, a valer uma já usada tese de antropologia acerca dos modos de combate primitivo que subsistem nas nossas mentes e nos nossos ritos de hoje). Com todas as lutas políticas dentro da classe dirigente a serem como sempre foram e como continuam a ser (quando são mesmo, e apenas, acerca da estruturação da classe dirigente). Eu nem gosto do tema, ao qual costumo chamar (com desprezo) populismo, mas a verdade é que um texto tão antigo, ao manter-se tão actual, faz pensar até que ponto às vezes só mudam as moscas.

RicardoII no TNDM.jpg
(Foto do sítio do TNDM.)

junho 20, 2007

Um mundo rasgado...

...é este mundo que resulta de muitos pensarem que não somos mais do que formigas dotadas de mecanismos de reacção aos estímulos físicos locais, esquecendo a história acumulada, as instituições que herdámos e que nos moldam (apesar de as podermos também moldar um pouco), a imaginação que nos empurra para muitos lados (mesmo quando essa imaginação é delirante), a utopia que nos alenta ou nos leva para becos sem saída, e ... e...


mundorasgado.jpg

junho 19, 2007

Quando o desejo toma o seu tempo

Já está por aí o filme Lady Chatterley, realizado pela senhora Pascale Ferran, baseado numa das versões de "O Amante de Lady Chatterley", de D. H. Lawrence. Nada pretendo aqui acrescentar ao que milhões de críticos, encartados ou não, já contribuíram.
Apenas digo isto: este filme ajuda a pensar como os dias de hoje tornaram o desejo apressado, como a pressa consumista se equilibra mal com o feitiço do lento pormenor, do rendilhado das palavras e dos silêncios.
E, já que estou nisto, sempre acrescento: maridos confiantes, doutores e artistas, ponham os olhos no exemplo: o homem do bosque pode ter mais encanto do que a sofisticação saloia dos que se julgam os mais requintados da capoeira. E não se consolem com a cadeira de rodas: a pior "ineficiência" não é a paralisia dos membros inferiores, mas o embotamento dos espíritos altivos.

LadyChatterley-1.jpg
(Clicar para aumentar)

junho 15, 2007

Os vulgares e os outros (ou "outra epístola aos deterministas")

Dedico este excerto de uma obra de Dostoiévski a todos aqueles que acreditam que nós somos apenas peças de uma grande máquina, peças sem liberdade, cujas "acções" são apenas movimentos dos nossos constituintes físicos, determinados inexoravelmente pela longa sequência de tudo o que aconteceu antes.

- (…) Acredito apenas na minha ideia principal, que consiste precisamente em que as pessoas, pelas leis da natureza, se dividem em geral em duas categorias: a inferior (vulgares), ou seja, por assim dizer, o material que serve unicamente para engendrar semelhantes; e os homens propriamente ditos, ou seja, as pessoas que possuem o dom ou o talento de dizer, no seu meio, uma palavra nova. (…) a primeira categoria, ou seja, o material, consta em geral de pessoas conservadoras por natureza, correctas, que vivem na obediência e gostam de ser obedientes. (…) A segunda categoria consta dos que violam a lei, que são destruidores ou têm propensão para o serem, consoante as suas capacidades. (…) A primeira categoria é sempre senhora do presente, e a segunda é a senhora do futuro.
- (...) Mas diga-me uma coisa: como se podem distinguir os vulgares dos invulgares? Têm alguns sinais de nascença?

Fiodor Dostoiévski, Crime e Castigo (1866)
Tradução portuguesa publicada pela Editorial Presença, 2002, pp. 245-246

junho 11, 2007

Um desconhecido recomenda este blogue



junho 10, 2007

Dia de Portugal

"José Mattoso [em A Identidade Nacional] conta-nos que um dia o rei D. Luís perguntou do seu iate a uns pescadores, com quem se cruzou na costa, se eram portugueses; e a resposta foi desconcertante e clara: «Nós outros? Não, meu Senhor! Nós somos da Póvoa do Varzim!». A resposta revela a complexidade do problema. O serem portugueses não lhes pôde ocorrer, quando a pertença à comunidade próxima é que estava presente."
Guilherme d'Oliveira Martins, Portugal - Identidade e Diferença, Gradiva, 2007, p. 16

junho 08, 2007

Micro Audio Waves

Eles vêm aí de novo. Alerta, pois. Para ir ajeitando os nervos, fica uma das clássicas deles.

push down

gently

but firmly

until the body is fully connected


by touching

a grounded metal surface

firmly

until the body is fully connected


(excerto de “Fully Connected”, do álbum No Waves dos Micro Audio Waves)





junho 07, 2007

Einstein recomenda este blogue



junho 01, 2007

A causa longínqua (ou "epístola aos deterministas")

OGrandeMetafisico-1916-Neue Nationalgalerie Berlin 1dez06.jpg
De Chirico, O Grande Metafisico (1916), Neue Nationalgalerie, Berlim

Dedico este excerto de uma obra de Jorge Luis Borges a todos aqueles que acreditam que o mundo é uma grande máquina, com peças muito bem encaixadas umas nas outras, em que, causa após causa, tudo o que nós fazemos (melhor, tudo o que nos acontece) é determinado pela longa sequência de tudo o que aconteceu antes, de tal modo que a nossa liberdade é pura ilusão (e assim deverá ser, também, a nossa responsabilidade).

A causa longínqua.

Em 1517, o padre Bartolomé de las Casas teve muita pena dos índios que se extenuavam nos laboriosos infernos das minas de ouro das Antilhas e propôs ao imperador Carlos V a importação de negros, que se extenuaram nos laboriosos infernos das minas de ouro das Antilhas. A essa curiosa variação de um filantropo devemos factos infinitos: os blues de Handy, o êxito alcançado em Paris pelo pintor doutor oriental D. Pedro Figari, a boa prosa bravia do também oriental D. Vicente Rossi, o tamanho mitológico de Abraham Lincoln, os quinhentos mil mortos da Guerra da Secessão, os três mil e trezentos milhões gastos em pensões militares, a estátua do imaginário Falucho, a admissão do verbo linchar na décima terceira edição do Dicionário da Academia, o impetuoso filme Aleluya, a forte carga de baioneta conduzida por Soller à frente dos seus Pardos y Morenos no Cerrito, a graça da menina Fulana, o mulato que assassinou Martín Fierro, a deplorável rumba El Manisero, o napoleonismo corajoso e encarcerado de Toussant Louverture, a cruz e a serpente no Haiti, o sangue das cabras degoladas pela catana dos papaloi, a habanera mãe do tango, o candombe.
Além disso: a culpável e magnífica existência do atroz redentor Lazarus Morell.

Jorge Luis Borges, História Universal da Infâmia (1935). (Primeira secção de “O atroz redentor Lazarus Morell”. Tradução portuguesa de José Bento, in Jorge Luis Borges, Obras Completas, Volume I (1923-1949), Lisboa, Círculo de Leitores, 1998, pp. 295-355)

maio 28, 2007

Indígenas

"indigènes" no seu título original, "Dias de Glória" na versão portuguesa, é um filme francês sobre a história relativamente recente da França. Como os colonizados franceses do norte de África foram chamados a combater por esse país, cujo solo continental nunca tinham pisado, contra os alemães invasores. Como foram depois esquecidos. Como, depois das independências, viram mesmo perdidas as suas pensões de ex-combatentes. Uma pequena contribuição para que se comprenda que o racismo europeu não é uma invenção de uns poucos, mas uma realidade histórica concreta. Um filme que alguns franceses consideraram anti-francês. Porque em todo o lado há os que julgam que a verdade só deve ser dita salvas as conveniências. Chegou a Portugal e deve ver-se, para nossa ilustração - até porque não é maniqueísta e deixa que apareçam algumas das contradições que operam em tal cenário.


AFFICHE_INDIGENESweb.jpg

maio 17, 2007

Isabel Durão Pires Barroso de Lima

No passado dia 17 de Abril publiquei aqui uma posta (Jaime Durão Gama Barroso) onde mostrava o meu espanto por Jaime Gama, alto dirigente do PS e por esse partido indigitado para presidente do Parlamento, apoiar a renovação do mandato de Durão Barroso à frente da Comissão Europeia. O meu espanto derivava do seguinte: dada a conjugação das regras e das práticas institucionais da União, isso significa que Gama deseja que a direita vença as próximas eleições para o Parlamento Europeu.
Tenho de vir hoje aqui reafirmar a minha posição, porque parece ter pegado a moda, entre alguns socialistas, de desejarem perder as próximas eleições europeias. Hoje é a ministra da cultura, Isabel Pires de Lima, que diz apoiar a reeleição de Durão Barroso. Tudo com o devido destaque no Diário Económico.
Em boa verdade, isto não me fez gostar menos da senhora, porque nesse pano já não restava muito para cortar...

maio 16, 2007

Energias renováveis

energias-renovaveis-by-Marc.jpg


"Sinto nostalgia do período anterior à economia pós-combustíveis fósseis e pós-urânio!"

(Cartoon de Marc Schober)

(Clicar sobre a imagem para aumentar.)

maio 14, 2007

Estrangeirados de estimação

Por razões que não vou aqui explicar, há dois blogues (um recente, o outro recentemente reactivado) que actualmente me servem de olhos emprestados para ver o mundo. Sendo que esses olhos emprestados se abrem hoje em coordenadas diferentes daquelas em que de momento encontro poiso. Não sou eu que vou dizer aqui o que não dizem lá os dois donos desses olhos expatriados, nem vou fornecer chaves de leitura que poderiam ser apenas formas de estreitar o que eles podem significar. Nem vou explicar os meus gostos e as minhas solidariedades. Mas deixo os endereços dessas duas gazetas de novos futuros estrangeirados:

Uma Rua ao Frio

Uma Alfacinha em Paris

maio 10, 2007

A última proposta de Carmona Rodrigues

Fontes extraordinariamente informadas (note-se que não digo "bem informadas", mas apenas "informadas") dizem-nos (note-se que não escrevo "informam-nos", mas apenas "dizem-nos", o que também pode significar "mentem-nos") que Carmona Rodrigues deixou a última reunião da vereação da câmara de Lisboa sem cumprimentar ninguém, não por mera falta de educação, mas por estar muitíssimo revoltado com o facto de não ter sequer conseguido agendar aquela que, no seu íntimo, sempre esteve pensada como a sua última proposta em qualquer circunstância. Tratava-se, podemos escrever, de uma proposta para uma homegagem póstuma a si mesmo: uma estátua que os nossos criativos, a partir dos esboços do próprio Carmona, recriam no boneco que publicamos abaixo.
Segundo a sua ideia a estátua deveria intitular-se "Dinamismo Realizador".

Budapeste_Marco2006-076.jpg
(Budapeste, Março de 2006. Foto de Porfírio Silva)

(Clicar sobre a imagem para ampliar.)

maio 07, 2007

Duas derrotas

1. Ségolène perdeu. Em França é quase sempre assim. Raras vezes a esquerda tem chegado ao topo do poder de estado. Os barões socialistas logo começaram a morder na senhora. Isso também é habitual em França: não há qualquer pudor em entrar nos barcos das vitórias quando elas existem, tal como ninguém se inibe de morder os derrotados como se o mundo estivesse todo nas suas mãos e eles perdessem necessariamente pela sua incapacidade intrínseca. Havia, talvez, um candidato melhor do que Ségolène: Strauss-Kahn. Mas, mesmo os homens que talvez sejam grandes, deviam perceber que a história passa por outras coisas maiores que as suas cabeças brilhantes. Neste caso, a vitória de uma mulher para presidente, pelo lado da esquerda, teria um significado próprio. Por uma razão simples: porque é uma entorse à democracia que isso nunca tenha acontecido. Mas "homens inteligentes" como certos dirigentes socialistas franceses são incapazes de perceber isso, são incapazes de compreender que a mudança não se faz só com "ideias", "projectos", "renovações social-democratas". Que a mudança tem de acontecer com "acontecimentos". E seria um acontecimento que uma mulher "quase normal", esposa e mãe, tivesse completado a sua carreia política com a presidência. Hilary Clinton talvez lá chegue, quem sabe.
2. Jardim venceu. Não tenho fígado para falar muito nisso. Mas uma coisa tem de se dizer: aquilo não é uma democracia e é uma vergonha que os órgãos próprios do Estado, a começar pelo Presidente da República, olhem para o lado e façam de conta que não vêem nada. Tal como é uma vergonha que o PS "de Lisboa" ainda venha saudar a vitória do ditador. Que asco. Se aquilo fosse o ambiente que nos tocasse a nós viver, aqui no continente, suportaríamos essas palmadinhas nas costas? Aqueles que criticam com tanta facilidade o distante presidente da Venezuela calam-se a isto. Isso prova que Jardim há muito tempo começou a exportar o terror das suas ilhas para o continente: exporta os silêncios obrigados, os medos, a auto-censura, a conivência com o inaceitável. Tudo começa sempre assim.
Que domingo!

maio 05, 2007

A sabedoria prática dos filósofos (regra geral)

Este vídeo Monty Python é por demais conhecido dos amantes dos circuitos de vídeo da chamada Web 2. De qualquer modo, porque não podemos permitir que um leitor deste blogue desconheça este hino ao engenho, à sabedoria prática, ao sentido da realidade dos verdadeiros filósofos, aqui o deixamos.
Por favor, notem como, até numa tarefa tão complexa como um jogo de futebol, ao fim de algum tempo pelo menos um filósofo encontra uma forma efectiva de atingir um determinado resultado. Isso justifica, nesse caso, um verdadeiro "Eureka". Quem poderá, depois disto, pretender que os flósofos andam às voltas no campo sem ter a noção do que há a fazer?

maio 04, 2007

Rigor: ainda o debate Ségolène-Sarkozy (continuação)

Para ilustrar o post anterior intitulado "Rigor: ainda o debate Ségolène-Sarkozy", acrescentamos agora um cartoon original de Marc Schober (um francês perdido por essa Europa).


Ségolène est en colère.jpg

maio 02, 2007

Debate presidencial Ségolène vs. Sarkozy

Acabou há momentos o debate da segunda volta das presidenciais francesas entre Ségolène Royal e Nicolas Sarkozy. Está fora de causa fazer aqui um balanço de ganhos e perdas, porque sou suspeito (prefiro a candidata socialista), mas há duas ou três pequenas notas que não posso deixar de apontar.
Em primeiro lugar, noto que Ségolène diz "quero um país de empreendedores" e Sarkozy diz (e repete) "quero um país de proprietários". Isso diz tudo da diferença entre uma certa esquerda e uma certa direita: o apelo ao ser "proprietário", como primeiro objectivo, é o apelo a uma condição, a um estatuto, a "um estado" - mas não é um apelo à acção, nem à responsabilidade perante a comunidade, nem à imaginação criadora. Uma direita que apela à aspiração de ser "proprietário" é uma direita inspirada nas classes possidentes e ociosas do antigo regime, não é sequer a direita da iniciativa económica e do gosto pelo risco. Ao contrário, a esquerda que diz querer um país de empreendedores (ou de empresários, como mais directamente devíamos traduzir a palavra francesa) é uma esquerda que promete ser capaz de ultrapassar o estatismo, o "tudo-ao-estado", o culto da dependência como solução generalizada. Aí, voto Ségolène.
Em segundo lugar, Sarkozy teve várias oportunidades de mostrar a sua falta de carácter. Especialmente, quando citou repetidas vezes o marido de Ségolène, inclusivamente questionando-a sobre se ela seguia as opiniões dele. É certo que o marido dela é também o chefe dos socialistas, mas mesmo assim o abuso dessa referência parece pouco normal quando as coisas se mantêm no plano das ideias e das atitudes que importam à função pública, não extravasando para a mesquinhez.
Em terceiro lugar, aplaudo que Ségolène tenha reivindicado a sua condição de mulher e de mãe (de quatro flhos), porque é cada vez mais urgente para a qualidade da democracia que se abram as portas do armário e as mulheres cheguem, em força e rapidamente, às mais altas responsabilidades das nossas democracias.
Há, de facto, qualquer coisa em jogo no próximo domingo em França.

abril 26, 2007

Visões da Europa (7)

Por ocasião dos 50 anos da assinatura dos Tratados de Roma (1957-2007), temos vindo a divulgar uma série de cartoons mostrando visões desta Europa.
Concluímos, hoje, com um trabalho da autoria de Omar Perez (Argentina) e outro (logo abaixo) da autoria de Omar Zevallos Velarde (Perú).
Pode ver-se, pelas ópticas humoristas que aqui registámos, que o mundo nos vê muitas vezes com algum sarcasmo. Mas talvez também com alguma inveja, não? É que há razões para isso. ("Isso" quer dizer: tanto a inveja como o sarcasmo.)

Cartoon de Omar Perez - Argentina.JPG Cartoon de Omar Zevallos Velarde - Perú.JPG

abril 25, 2007

Visões da Europa (6)

Por ocasião dos 50 anos da assinatura dos Tratados de Roma (1957-2007), continuamos a série de cartoons mostrando visões desta Europa.
Hoje temos (primeiro) um trabalho da autoria de Hasan Fazlic (Bósnia Herzegovina) e (logo abaixo) outro da autoria de Luís Afonso (Portugal).

Cartoon de Hasan Fazlic - Bósnia Herzegovina.JPG Cartoon de Luís Afonso - Portugal.JPG

abril 24, 2007

Visões da Europa (5)

Por ocasião dos 50 anos da assinatura dos Tratados de Roma (1957-2007), continuamos a série de cartoons mostrando visões desta Europa.
Hoje temos (primeiro) um trabalho da autoria de Cristian Mihailescu (Roménia) e (logo abaixo) outro da autoria de Farhad Foroutanian (Holanda).

Cartoon de Cristian Mihailescu - Roménia.JPG Cartoon de Farhad Foroutanian - Holanda.JPG

abril 23, 2007

Visões da Europa (4)

Por ocasião dos 50 anos da assinatura dos Tratados de Roma (1957-2007), continuamos a série de cartoons mostrando visões desta Europa.
Hoje temos (primeiro) um trabalho da autoria de Alex Falcó Chan (Cuba) e (logo abaixo) outro da autoria de Brito (França).

Cartoon de Alex Falcó Chan - Cuba.JPG Cartoon de Brito - França.JPG

abril 20, 2007

Visões da Europa (3)

Por ocasião dos 50 anos da assinatura dos Tratados de Roma (1957-2007), continuamos a série de cartoons mostrando visões desta Europa.
Hoje temos dois trabalhos da autoria de Anatoliy Stankulov (Bulgária).

Cartoon de Anatoliy Stankulov - Bulgária.JPG
outro Cartoon de Anatoliy Stankulov - Bulgária.JPG

abril 19, 2007

Visões da Europa (2)

Por ocasião dos 50 anos da assinatura dos Tratados de Roma (1957-2007), continuamos a série de cartoons mostrando visões desta Europa.
Hoje temos dois trabalhos de autores russos: Vasily Alexandrov (acima) e Oleg Loktyev (abaixo).

Cartoon de Vasily Alexandrov - Rússia.JPG outro Cartoon de Oleg Loktyev - Rússia.JPG

abril 18, 2007

Visões da Europa (1)

Por ocasião dos 50 anos da assinatura dos Tratados de Roma (1957-2007), que fizeram nascer o que hoje é a União Europeia, o Gabinete em Portugal do Parlamento Europeu publicou uma obra bastante curiosa. Tem por título :) Europa (pode ler-se "smiling Europa") e consiste numa muito interessante colecção de cartoons dedicados à CEE/União Europeia, anteriormente publicados na imprensa de muitos países por esse mundo fora. Inspirados nessa iniciativa vamos, nos próximos dias, divulgar aqui alguns cartoons que ou foram inseridos nesse magnífico pequeno livro ou poderiam tê-lo sido.
A Europa precisa de humor, mesmo que seja crítico e até cáustico. E quem não percebe isso não percebe que nós não somos a Rússia nem a China nem...
O cartoon de hoje é da autoria de Hilar Mets (Estónia).
Cartoon de Hilar Mets - Estónia.JPG

abril 17, 2007

Jaime Durão Gama Barroso

Na semana passada o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, foi recebido na Assembleia da nossa República (AR). Na sala do senado, perante uma reunião conjunta das comissões parlamentares. Houve discursos e coisas que tais.
Parece, segundo a rádio, que o presidente da AR, Jaime Gama, manifestou nessa ocasião esperança ou desejo de que José Manuel Barroso tenha um segundo mandato à frente da Comissão Europeia.
Ora, conhecendo a conjugação das regras e das práticas institucionais da União, isso significa que Gama deseja que a direita vença as próximas eleições para o Parlamento Europeu. Foi essa direita europeia que escolheu Durão para o lugar, como politicamente lhe competia por ter ganho as eleições europeia. Então, sendo Gama, hoje em dia, a segunda figura do Estado, onde chegou porque o Partido Socialista o colocou lá (uma vez que nunca ganhou nenhuma grande eleição nacional pelo seu próprio pé), fica a dúvida: porque razão o Dr. Gama deseja a vitória dos adversários políticos do seu partido e da sua "família política" nas eleições europeias?
Alguns dirão: é por ser português. A meu ver essa é uma visão muito estreita da política europeia. Uma visão com uma entorse "nacional". O que interessa é a valia do personagem e o que ele anda a fazer. A candidata socialista à presidência da república francesa, por exemplo, ainda agora voltou a criticar a visão meramente liberal que Barroso tem para a Europa. Ou será mesmo disso que Gama gosta em Durão?
Na última vez que a questão se colocou, quando se tratava de escolher o presidente da Comissão Europeia agora em funções, Portugal tinha um candidato "oficial" a presidente (o então, aliás excelente, Comissário António Vitorino) e o então primeiro-ministro de Portugal (Barroso) fazia de conta que apoiava esse candidato e andava a fazer-lhe a cama, porque desejava o lugar para si. Num certo sentido tinha razão, porque, se as eleições europeias não servissem para influenciar os lugares e as políticas europeias, não valia a pena irmos a votos. O que não se percebe é que, agora, sejam (certos) socialistas a "desejar" a vitória dos apoiantes de Barroso por essa Europa fora.

JMDB.JPG

abril 16, 2007

Comentário a qualquer coisa que nem sei bem se diga

«A Psicologia é uma Superzoologia. Enquanto não for assim considerada e estudada, será apenas uma colecção de palavras gregas, vocábulos mortos de um valor misterioso (…). Lembranças, ideias, sentimentos, existem, como pessoas, no seu ambiente próprio. Formam uma espécie de sociedade teocrática ou presidida por um deus egoísta. Anima-a o instinto conservador; e é ela que determina os nossos actos. Somos escravos duas vezes: da sociedade que em nós vive e da outra em que vivemos.»
Teixeira de Pascoaes, Duplo Passeio (1942)

TiagoManuel.jpg
(Ilustração de Tiago Manuel, publicada com a coluna Boca de Incêndio, de João Paulo Cotrim, na Actual/Expresso de 24 de Junho de 2006)

abril 02, 2007

Ensaio sobre as teorias da inovação

Receita para Relógio de pulso com Mostarda (produto pluridisciplinar mítico).

1. Tome-se um relógio de pulso perfeitamente clássico. Acrescente-se mostarda. Em caso de um ataque de fome, o novo produto é indiscutivelmente muito mais útil do que o produto clássico. Trata-se de uma inovação. As mentes esclarecidas dar-se-ão imediatamente conta da sua valia, com base na adesão ao princípio geral da superioridade intrínseca das inovações. Contudo, dada a raridade crescente dessas mentes esclarecidas, deve prever-se um processo de demonstração da superioridade desta inovação particular em concreto (método delineado nos pontos seguintes).

RelogioClassicoEComMostarda.jpg
À esquerda: Relógio de pulso clássico. À direita: Relógio de pulso com mostarda.


2. Constrói-se um relógio de pulso com mostarda degenerado (isto é: sem mostarda). Torna-se trivialmente patente que mesmo o relógio de pulso com mostarda degenerado, apesar de não ser tão completo como o relógio de pulso com mostarda original, é tão útil para medir o tempo como um relógio de pulso clássico.

RelogioComMostardaDegenerado.jpg
À esquerda, relógio de pulso com mostarda. À direita, relógio de pulso com mostarda degenerado.

3. Considerando: (a) que os novos relógios de pulso com mostarda são pelo menos tão bons como os relógios de pulso clássicos a fazer a única coisa que fazem os relógios de pulso clássicos (medir o tempo); (b) que os novos relógios de pulso com mostarda têm uma valência completamente ausente nos relógios de pulso clássicos (culinária); deve concluir-se pela superioridade dos relógios com mostarda.

Anexo: Cuidados a ter com indivíduos pouco sensíveis à inovação.
Parte I - Se ao cozinheiro se fizer notar o ligeiro gosto metálico que tomou o condimento, responda-se que há que atender ao facto de que nunca antes a mostarda se vira assim associada à medição do tempo.
Parte II - Se ao relojoeiro alguém apontar que os ponteiros estão parados, faça-se ver quão notável contributo deu o pertinente cozinheiro à nouvelle cuisine.

(Publiquei este texto pela primeira vez no Turing Machine a 14/nov/03.)

março 07, 2007

O sono da razão e outras criaturas

Sui Jianguo é um dos artistas mais destacados entre aqueles que experimentam até onde podem ser empurrados os limites à liberdade na actual China (Popular? Pós-capitalista?). A sua obra mais famosa é O Sono da Razão (como "O Sono da Razão Produz Monstros", de Francisco Goya, que se refere ao Terror na Revolução Francesa). Em O Sono da Razão, de Jianguo, vemos um Mao Tsé-tung estendido (como um Buda reclinado), com os olhos fechados, coberto com uma manta azul às flores, rodeado de exércitos (como os guerreiros de terracota à volta do túmulo do imperador). Mas os exércitos são 20.000 dinossauros em miniatura, nas mais diversas cores garridas, em manadas que se chocam entre si (como os chineses fizeram várias vezes sob a batuta do Grande Timoneiro).

Sono1.jpg
Aspecto de uma das versão de O Sono da Razão, de Sui Jianguo.
(Foto de autor desconhecido.)


Outra das provocações conhecidas de Sui Jianguo é um dinossauro vermelho com a inscrição "Made in China": como os brinquedos chineses baratos vendidos em todo o mundo; como os "dinossauros" do Partido; como a espécie animal há muito extinta na natureza...

Madein_1.jpg
Uma versão de Made in China, de Sui Jianguo.
(Foto de autor desconhecido.)

Sin Jianguo é um dos artistas da "fábrica 798": uma antiga fábrica de armamento construída nos arredores de Pequim pela antiga Alemanha de Leste para os camaradas chineses, ocupada por criadores culturais entre o alternativo e o chique.

(Mais informação no capítulo XLII do livro de Federico Rampini, O Século Chinês, de 2005, publicado em português pela Editorial Presença em 2006)

fevereiro 26, 2007

Uma inestética da crítica

Parte da "agenda oculta" deste blogue passa por namorar uma certa inestética da crítica (que palavrão...). Quem conheceu os portugueses Ena pá 2000 no seu início pode fazer uma ideia do que queremos dizer (pena que se tenham deixado cair na facilidade). O vídeo que se pode ver clicando abaixo é um exemplo do que, por esse lado, me apetece. São os Flying Lizards a executar "Money". A letra é uma sátira simples mas eficaz. A encenação beneficia da incrível "cara de pau" da vocalista. Quanto à música: aqueles que a achem primária sempre podem fazer um esforço de memória para a comparar com as variadas peças para "instrumentos de brinquedo" compostas pelo "clássico contemporâneo" John Cage.

fevereiro 22, 2007

Regresso

Acabei uma tarefa de quatro anos. A tese de doutoramento está entregue, ainda há-de demorar a discussão e qualquer coisa que se lhe siga. Não é que tenha pouca coisa para fazer, mas a disciplina agora mudou. É, pois, tempo de regressar, com calma. Digo regressar porque se trata de retomar, em larga medida, um projecto que aqui andou há uns dois anos atrás. Falo do Turing Machine, que ainda existe (embora em estado cadavérico).
Nos próximos dias vou aqui inaugurar alguns dos temas que estruturarão este espaço (lista dos temas na coluna da direita). Entre outras coisas vou explicar (justificar?) aquela coisa de "Machina Speculatrix". Não é por acaso, não: é uma geração diferente daquela em que encontramos a Máquina de Turing, mas trata-se ainda da mesma família.
Para complicar ainda mais este programa de intenções: em geral, teremos pequenas "postas" todos os dias úteis. Aos sábados e domingos fechamos para balanço (ou descanso, porque o descanso dá muito balanço).
Prometer é fácil; logo se verá se se cumpre. Para verificarem com os vossos próprios olhos, apareçam.