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Machina Speculatrix

Este é o arquivo do Tema "6. Memórias e Objectos" | Regressar à Entrada

julho 11, 2007

Sete contra Tebas

De Ésquilo. Na Culturgest. Ontem. Um espectáculo de Diogo Dória. O coro, as mulheres, representando o medo que lança o glorioso rei e o guerreiro no confronto fatal. Acontece.


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julho 02, 2007

Política, Ciência, Linguagem (e Memórias)

Começou ontem mais uma Presidência Portuguesa da União Europeia (ou, mais precisamente, do Conselho da União Europeia). Guardando gratas recordações da anterior Presidência Portuguesa (em 2000), na qual tive um modesto papel (fui presidente do Grupo das Questões Sociais no Conselho), faço aqui uma pequena comemoração de um tempo que foi uma muito gratificante experiência profissional e pessoal: reedito (com minúsculas alterações) um post que apareceu no defunto Turing Machine a 23 de Janeiro de 2004.

Política Europeia. A 1 de Maio de 1999 entrou em vigor o Tratado de Amesterdão, que modificava o Tratado que institui a Comunidade Europeia. Uma das modificações consistia no novo Artigo 13, segundo o qual o Conselho (que reúne os ministros dos Estados Membros) "pode tomar as medidas necessárias para combater a discriminação em razão do sexo, raça ou origem étnica, religião ou crença, deficiência, idade ou orientação sexual". A 25 de Novembro de 1999 a Comissão Europeia propôs o "pacote anti-discriminação": duas directivas, uma para ilegalizar a discriminação racial em largos domínios da vida social e outra para ilegalizar a discriminação no mercado de trabalho relativamente aos outros motivos de discriminação; um programa de acção para apoiar a aplicação da futura legislação. (A discriminação sexista já estava coberta por abundante legislação europeia, pelo que ficou de fora destas propostas.) Dada a especial sensibilidade de uma matéria que era nova nas competências comunitárias, o Tratado exigia unanimidade dos Estados Membros na aprovação. O primeiro elemento desse pacote a ser aprovado foi a "directiva raça", que ilegalizava a discriminação racial ou étnica em domínios muito vastos da vivência social, como o mercado de trabalho, a protecção social, a educação, o acesso aos bens e serviços, a habitação. Um dos aspectos curiosos da negociação surgiu logo no início do processo: um grupo de países (com destaque para a Suécia) argumentava que não existem, na humanidade, diferentes raças, apenas uma raça humana - pelo que não aceitava que a legislação usasse expressões como "raça" ou "origem racial". Não punham objecções à expressão "origem étnica".

Ciência. Lembrei-me disto a propósito do tema de capa da Scientific American de Dezembro de 2003. À pergunta "As raças existem?" a resposta (simplificada) é: não. Detalhemos. As características genéticas que determinam as características físicas usadas para distinguir as raças (como cor da pele, textura do cabelo, traços faciais) não permitem em geral definir populações do ponto de vista genético. As "raças" não são geneticamente homogéneas. A maior parte da variação entre indivíduos é dentro do mesmo grupo e não entre grupos. É verdade que um certo tipo de informação genética permite distinguir grupos humanos com antepassados comuns de forma suficientemente precisa para que essa variável possa ter interesse (p.ex. do ponto de vista médico) - MAS: (i) esses grupos não são raças; (ii) a informação genética necessária para essa atribuição não reside nos genes (que influenciam os nossos traços "raciais"), mas em certos polimorfismos na sequência de pares-base do ADN; (iii) só análises genéticas muito finas permitem essa atribuição de indivíduos a grupos.

Linguagem. Na negociação comunitária acima referida, a Suécia e seus aliados tinham, pois, do ponto de vista "filosófico", razão. No entanto, outras delegações argumentavam: se não se falar de raça, parece que estamos a fugir ao problema do racismo. É que o racismo age no pressuposto de que existem raças e é isso que se visa combater. Além disso, o Tratado fala em raça, uma directiva em aplicação do Tratado deve falar em raça. Foi tentada, então, uma solução "linguística": as cerca de dez ocorrências da expressão "origem racial ou étnica" contidas na proposta de directiva seriam sistematicamente substituídas por "alegada origem racial ou étnica". Assim, por exemplo, falar-se-ia de "combate à discriminação baseada em motivos de alegada origem racial ou étnica". Isto punha vários problemas. Por exemplo: todos reconhecem a existência real de etnias. Podia tentar-se um texto ainda mais obscuro, como "alegada origem racial ou origem étnica". Confuso! Outro: do ponto de vista jurídico, pelo menos em alguns países, esse texto podia pressupor que só haveria discriminação quando o autor tivesse em mente, ao praticar um acto, que ele estava ligado a uma pertença racial da vítima - o que tornaria extraordinariamente difícil a prova. A solução linguística falhou, como não podia deixar de ser: mesmo o conjunto limitado de línguas oficiais da UE não permitia encontrar uma forma de contornar a realidade por via da expressão linguística rebuscada e tortuosa. Aliás, num certo sentido, a solução linguística só foi tentada para mostrar que ela era inviável. A solução final foi: deixar a referência às raças no dispositivo jurídico e inserir no preâmbulo um considerando afirmando que isso não prejudicava o facto de que "a UE rejeita as teorias que tentam provar a existência de raças humanas separadas".

Memórias. O meu particular interesse por este assunto vem de ele me estar na memória. Coube-me na roleta a grata tarefa de presidir ao grupo de trabalho do Conselho que, entre Janeiro e Junho de 2000, tratou quase diariamente (à mesa e nos bastidores) de pôr a "directiva raça" em condições de ser aprovada por unanimidade. Um processo negocial envolvendo (na altura) quinze países, a Comissão e o Parlamento Europeu, sob fortes pressões desencontradas de ONGs e parceiros sociais, sobre um tema tão delicado politicamente e tocando aspectos muito diversos do ordenamento jurídico dos Estados envolvidos - foi uma selva. Uma selva luxuriante, diga-se. Acerca desse processo negocial, escreveu Adam Tyson (num texto de 2001), numa análise detalhada por parte de quem aí representou a Comissão Europeia: "A directiva foi negociada e adoptada pelo Conselho em 7 meses a contar da data da proposta pela Comissão. Trata-se de um record em termos de adopção de um instrumento legislativo da Comunidade requerendo mudanças legislativas substanciais a nível nacional (...)." Andrew Geddes e Virginie Guiraudon, académicos que tiveram acesso a informação de actores envolvidos que só foi "libertada" mais tarde, comparando o resultado (conteúdo legislativo) com o tempo dispendido, falam (num texto de 2004) de "record mundial" e escrevem que "ninguém esperava que tanto pudesse ser alcançado em tão pouco tempo". Tudo me voltou agora da memória na forma de uma tríade explosiva: política, ciência e linguagem.

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Imagem de Nancy Burson, Scientific American, Dezembro 2003 ( ver mais do seu projecto artístico e interventivo em "There is only one race, the human one. The concept of race is not genetic, but social. There is no gene for race. The Human Race Machine allows us to move beyond differences and arrive at sameness. We are all one." )

junho 27, 2007

Até já, Nina e Želimir

Kajetan Kovič (n. 1931) é um escritor e poeta esloveno. Deixamos aqui este breve fragmento da sua obra para assinalar a nossa amizade (e a amizade de tantos outros, dos bons) por Nina Kovič (sua filha) e Želimir Brala (marido dela), ambos tradutores da sua obra. Para a Nina e o Želimir, até já!

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Mon père

Mon père,
não sei porque te chamo assim,
não falavas francês,
mas isto provavelmente terias entendido,
talvez eu to diga numa língua estrangeira
por causa da distância,
conseguíamos amar-nos
apenas assim:
não muito de perto.
Estávamos sentados
em velhas tabernas,
bebíamos um riesling
ou um šipon
ou, mais frequentemente,
qualquer vinho ácido,
falávamos
das coisas muito comuns.
A vida parava
por de trás das portas,
numa distância segura.
Parecia impetuosa demais
para lhe dar um nome.
Tínhamos medo,
mon père,
das palavras fortes demais.
Agora és apenas
uma foto na parede
e uma tumba num bonito cemitério.
Acendo-te uma lamparina,
trago-te flores.
Não a ti,
aos teus ossos.
Conto-te
tantas cousas.
E tu calado.
Apenas a tua lápide.
Com as datas.
De – a.
Meu Deus,
que cousas os filhos não dizem
hoje aos pais.
Aos vivos e aos mortos.
Mon père,
nenhum era
como tu.
Tão só,
tão meu,
tão pai,
perdido neste mundo
como eu.

Kajetan Kovič
(tradução de Želimir Brala) in Litterae Slovenicae / Slovenian Literary Magazine, 2 – 1999 – XXXVII – 95 – Número integralmente em português, dedicado a “Nove poetas eslovenos contemporâneos” (pp. 21-22)

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Olores

En la mañana de todos los días
el olor excitante de hierba seca,
el sabor de orujo,
el olor húmedo de bodega
y la luz terrosa
del sueño repentino
cuando siluetas blancas de los muertos
esperan delante de la puerta
y como perros humildes
husmean la casa y el umbral
y el vestíbulo oscuro
donde los muchachos a las primeras horas de la tarde
sienten el escalofrío y el pavor de las muchachas.

Kajetan Kovič
(tradução de Nina Kovič) in Litterae Slovenicae / Slovenian Literary Magazine, 2 – 1997 – XXXV – 91 – Número integralmente dedicado à poesia de Kajetan Kovič (p. 93)

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Para enquadramento: «A poesia de Kajetan Kovič considera-se o marco divisório, erguido em ambas partes, que representa a passagem da poesia tradicional para a poesia moderna. Kovič faz parte do grupo dos poetas que publicaram “Permi štirih” (“Os Poemas dos Quatro”), a compilação que introduziu “o intimismo” e a postura poética apolítica que acabou por ser entendida, porque se afastou do realismo social e adrede tomou a atitude contra “a poesia de alvião” que pateticamente glorificava o trabalho e a colectividade e onde quase sempre figurava o sujeito “nós”, como um acto político.» (Matej Bogataj)

junho 24, 2007

Shakespeare africano: força e significado

A peça de teatro NAMANHA MAKBUNHE parte do muito clássico "Macbeth" de Shakespeare e dá-lhe uma leitura que, permanecendo basicamente fiel ao modelo, se adapta. Se adapta, designadamente, a algumas realidades africanas - para a partir daí nos dar um espectáculo que, continuando a ser de validade universal, assume formas muito belas.
Produzida pelo Teatro Nacional de D. Maria em colaboração com o grupo "Os Fidalgos", da Guiné Bissau, representada por actores africanos, explora magnificamente a contextualização africana. Por exemplo, com as danças das feiticeiras, aquelas ideias que sugerem sonhos de glória aos ambiciosos e assim os levam ao engano e à desgraça, representadas por feiticeiras tanto na versão original como nesta versão. Ou com a música e canto que acompanham o narrador. E com o próprio narrador, o qual, aparecendo como o interlocutor do povo da tabanca, serve de dispositivo de optimização da economia do espectáculo.
Mas ainda, e este exemplo é ainda melhor para ilustrar as novidades desta adaptação e encenação, dando ao Macbeth africano (o guerreiro Makbunhe) duas mulheres, duas Lady Macbeth portanto: uma meiga e desinteressada do poder, virtuosa e pacífica, capaz de amar o seu homem mesmo que ele fosse apenas um camponês - sendo esta adequadamente uma negra roliça, doce e calma; outra impetuosa, acicatando o homem para a luta por todos os meios para alcançar o reinado, activa, pressionando sempre - sendo esta de um tipo físico mais enérgico, mais musculado, mais esguio, apresentada como mais prometedora em termos de dar herdeiros ao seu senhor. Criam uma tensão entre duas tendências de Makbunhe, duas possibilidades de ser, dois caminhos de acção, dois destinos - e materializam essa luta dentro das possibilidades de um ser humano na luta entre duas esposas legítimas de um mesmo marido, uma possibilidade dramatúrgica que Shakespeare não tinha disponível.
A peça, encenada pelo polaco Andrzej Kowalski e que dá a ver o trabalho de actores magníficos, está no Teatro da Trindade só até 1 de Julho e deve ser vista. Imperativamente. Depois não digam que eu não avisei. (Se a coisa não fosse urgente não estaria a escrever aqui ao domingo, note-se.)

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(Foto do sítio do TNDM II.)

junho 18, 2007

Um problema nos alicerces

Está praticamente bom. Só falta o "praticamente".


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junho 06, 2007

PERSEPOLIS, da BD ao cinema

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Primeiro foi uma grande Banda Desenhada. Agora é um filme de animação. PERSEPOLIS é a história de uma rapariguinha iraniana que vive a queda do Xá e o início da República Islâmica no Irão - e que vive tudo isso nas contradições de todos os que tiveram esperança em coisas nas quais é perigoso ter esperança. A rapariguinha vem depois para o Ocidente, para ser poupada às eventualidades do poder religioso - e aí encontra outros motivos de perplexidade.
PERSEPOLIS, o filme, recebeu este ano o Prémio do Júri no Festival de Cannes. Vai aparecer em vários países europeus neste mês de Junho. Quanto a Portugal, não sabemos, nem sabemos se alguém sabe. Fica aqui o clip de apresentação, que está disponível, com mais material interessante, aqui no My Space.



junho 05, 2007

Imagem da Presidência Portuguesa da União Europeia

Esta é a imagem da próxima presidência portuguesa (do Conselho) da União Europeia.

Está no sítio da mesma.


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maio 31, 2007

Morte, saudade e esquecimento

Chegaram ao fim. Morreram. Finaram-se. Quebraram-se, simplesmente. E deixaram-me momentaneamente perdido. Às cegas. Foi ontem. Já foram substituídos. A saudade que ainda ontem sentia por eles já morreu. Acontece muito.


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José Eduardo Agualusa

José Eduardo Agualusa, um enorme escritor angolano que este Portugal bem conhece, terá o seu novo romance, "As Mulheres do Meu Pai", publicado entre nós pela Dom Quixote (onde sai a 20 de Junho). O blogue A Origem das Espécies está a pré-publicar desde ontem essa obra. É serviço público.É de ir lá começar a antecipar o gozo.

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maio 28, 2007

"Ainadamar", de Osvaldo Golijov, uma ópera que chega por mão amiga

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Federico García Lorca escreveu que a maior tragédia da história de Espanha foi a expulsão dos judeus desse país.
Osvaldo Golijov é argentino, descendente de judeus europeus, e escreveu a ópera “Ainadamar” (“fonte das lágrimas “ em árabe) sobre Lorca e o seu assassinato pelos franquistas, um dos gestos mais fundos da guerra civil espanhola.
O meu Amigo JPS veio oferecer-me um CD com essa ópera, “literalmente saturada de música espanhola”, em particular o flamenco, mas com muitas outras influências. Liturgicamente ouvimo-la logo ali, na íntegra. JPS usou uma sua provocação habitual (habitual nele, claro) para, pensando ele o que pensa em termos políticos, me oferecer uma ode a Lorca. Diz ele que o seu lema é “governo de direita, cultura de esquerda”, porque, acrescenta, “a inversa é uma catástrofe”. JPS, já pensaste que muita esquerda, secretamente, até concorda contigo, por ser mais cómodo?
Obrigado, JPS. Volta sempre.

Para ouvir legalmente alguns excertos: http://www.deutschegrammophon.com/special/video.htms?ID=golijov-ainadamar

maio 24, 2007

Para que não digam que não dou a cara...

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(Auto-retrato. Porfírio Silva.)
(Clicando sobre a imagem, aumenta.)

maio 04, 2007

Banda Desenhada, coisa de miúdos…

BLANKETS. An illustrated novel by Craig Thompson. Editado por Top Shelf Production (Marietta, Georgia, nos States) Saiu em 2003. O exemplar de que eu sou o feliz proprietário pertence à sexta impressão, de Dezembro de 2005.

Para aqueles que lamentem que os miúdos (e as miúdas) só leiam coisas menores, como BD, informo: Blankets tem quase 600 páginas, é a preto e branco, está escrito em inglês. Foi feito (escrito e desenhado) por um moço nascido em 1975 – e é, em parte, autobiográfico desse mesmo moço, o tal Craig Thompson. O que se passa nesta novela gráfica são coisas simples da vida dos adolescentes: a chatice de ter que partilhar o quarto com o irmão, as batalhas com esse mesmo irmão pelas pequenas coisas ridículas da vida que são tão importantes; as coisas estranhas que acontecem quando os adolescentes começam a acreditar em coisas sérias; as confusões dos amores juvenis e de crescer com esses amores; as coisas bonitas que não se podem descrever por palavras mas ficam lindamente num traço preto que parece simples mas é muito expressivo. Mas essas coisas simples podem dizer muito: o amor, o idealismo, a desilusão, a alienação, os medos e os pesares. Um grande livro.

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maio 03, 2007

“Caixas de Memória”, de Bartolomeu dos Santos, na Galeria Ratton

Inaugura a 10 de Maio, e estará patente a partir do dia seguinte e até finais de Julho, a exposição “Caixas de Memória”. Bartolomeu dos Santos (n. 1931) viu mundo e actualmente vive e trabalha em Londres, Sintra e Tavira, tem exposto e está representado em colecções por esse mundo fora. Do texto que a Galeria Ratton divulgou retomamos o que segue, especificamente sobre esta exposição.
“Caixas de Memórias”, tem um duplo sentido, denotativo e simbólico. A maior parte das obras são caixas, objectos utilitários que o artista subverte, desvia da sua finalidade, transforma em objecto “outro”, não deixando de questionar em tom provocatório o novo estatuto que adquirem: “Is this art?”
As caixas servem, por definição, para guardar objectos, ocultá-los, preservá-los. As caixas de Bartolomeu dos Santos abrem-se na transparência de uma face de vidro, revelam segredos guardados na memória. São caixas mágicas onde sorriem sereias aladas, pacientes Penélopes à espera de Ulisses. Nas imagens femininas transparece uma terna ironia de que reencontramos eco nas alusões explícitas a Fernando Pessoa e ao seu heterónimo Ricardo Reis, seres de uma realidade mítica criada pela poesia. Estas figuras remetem para a viagem, para um mar que conduz a ilhas de prazer ou a portos seguros.
A maior parte das caixas desvendam memórias menos pacificadoras, contêm uma amálgama de ruínas: pedaços de objectos devastados, calhaus, estilhaços de espelhos, fragmentos ilegíveis de um passado que desconhecemos. Outras ainda transportam-nos para oceanos de perigos e batalhas, onde se inscrevem referências históricas alusivas a guerras e naufrágios.
Não é apenas “Under the surface” que nos revela tesouros submersos, cada uma e, no seu conjunto, todas estas caixas e telas são “flashes” de uma narrativa maior, em que individual e colectivo, mito e História, ficção e realidade, morte e memória se entrelaçam em vida habitada por sonhos e pesadelos, corpos doces e destroços, barcos de viajantes-poetas e navios de guerra, muitas interrogações e algumas certezas.

EXPOSIÇÃO A VISITAR NA GALERIA RATTON, Rua Academia das Ciências, 2C, em Lisboa

(Agradecemos que a Directora da Galeria Ratton tenha autorizado a divulgação aqui destes elementos: texto supra e imagens infra.)


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março 28, 2007

Com o nu me escondes a verdade

«Na Europa, a verdade reside no que é desvelado, é a aletéia [dos gregos], enquanto que no Japão o que é mais importante é o que está escondido. Tanto assim é que o nu só acederá ao seu próprio valor sob as vestes. De tal sorte é a incomensurável distância que separa estas duas civilizações!»
(Hisayasu Nakagawa, Introduction à la culture japonaise, p. 101)

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Utamaro Kitagawa, “Fonte de poema”: quarto no primeiro andar (as reproduções ocidentais costumam assumir o título "Os Amantes").
(Kitagawa é um dos artistas mais populares no Japão da segunda metade do século XVIII, mas tem outras obras que correspondem pouco à idealização que Nakagawa nos propõe...)


março 22, 2007

Caligrafia

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(Foto de Porfírio Silva)

Caligrafia, no Templo do Buda de Jade, em Xangai, China. Caligrafia onde a luz mostra o seu espanto, onde a luz deixa uma marca de exclamação. Que espanto mostra a luz com esse sinal? Porque exclama a luz? Talvez pela nossa incompreensão.

Na China a escrita é um ramo das artes visuais, sem equivalente em nenhuma outra cultura. Os mais antigos testemunhos da escrita chinesa datam de há cerca de 3700 anos. As formas mais antigas eram inscrições divinatórias de que o soberano se servia para consultar os Espíritos sobre as grandes decisões do Estado. Essas primeiras inscrições traduziam conceitos e não falas. Pouco a pouco os símbolos foram-se aproximando da língua falada. A escrita chinesa mudou, entretanto, muito, mas mantém influência dessas origens.
Na China há escrita por todo o lado: em lugares de honra nos palácios e nos templos, nas paredes das lojas e das casas de chá, nas mais pobres casas da mais isolada aldeia.
Segundo certas opiniões, não é preciso saber ler chinês para apreciar a caligrafia. Pode apreciar-se a caligrafia sabendo como se escreve. Uma vez que cada caracter é composto por um número preciso de pinceladas, que devem ser dadas numa ordem precisa, podemos conhecer a dinâmica gestual que esteve na base de cada texto que vemos desenhado. E essa dinâmica pode ser apreciada mesmo sem compreender o chinês. O próprio conhecedor da língua chinesa pode ser colocado nessa situação, porque há uma forma de caligrafia (“escrita de erva”), uma espécie de estenografia frenética, que resulta quase indecifrável para a generalidade dos leitores chineses – mas é apreciada visualmente.
A caligrafia como forma de arte surgiu apenas no século III da nossa era, na época Han. A partir daí tornou-se uma disciplina, com teóricos, mestres, críticos, coleccionadores – até se tornar a mais prestigiada de todas as artes.
A caligrafia é executada com tinta, sobre seda ou papel, aplicada com um pincel – o que é um difícil exercício de controlo, requerendo concentração mental, equilíbrio físico, controlo muscular. Coisa para demorar muitos anos a dominar com alguma competência! A tinta, sendo instável (subtis matizes de brilho, negrura, profundidade, espessura, fluidez, secura, …), oferece inúmeras possibilidades expressivas. O papel ou a seda, sendo imediatamente absorventes, não permitem erros, nem hesitações, nem arrependimentos. Todas as tremuras do espírito ou do corpo ficam registadas.
Escrever: uma arte dos que apreciam a durabilidade do efémero.
(Recorremos ao capítulo 4 da obra de Simon Leys, Ensaios sobre a China, de 1998, com tradução portuguesa na Livros Cotovia, 2005)

março 20, 2007

Lá dentro dormem sentinelas

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Vistas da noite no bairro de Ginza (Tóquio).

(Foto de Porfírio Silva. 7 de Novembro de 2005.)

março 16, 2007

Autocarro escolar

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Vista de rua em Asakusa (Tóquio).

(Foto de Porfírio Silva. 7 de Novembro de 2005)

A Filha Rebelde

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Venho agora da estreia da peça A Filha Rebelde. Quem me conhece sabe que o teatro de que (mais) gosto é o "teatro metafísico" - e esta peça não está nesse grupo. Pode até achar-se um pouco ingénua a versão para teatro do texto que começou por ser reportagem dos jornalistas José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz. Mesmo assim. Não resisto a gostar muito deste espectáculo. Poucas vezes se dirá com tanta propriedade que a realidade ultrapassa a ficção. Há dias, na TV, uma jornalista perguntava a José Pedro Castanheira por que razão não tinha feito ficção com esta história. E ele respondeu, obviamente: para quê ficcionar quando temos esta realidade? É que uma das principais raízes da força deste espectáculo é ele contar uma história verdadeira da nossa história recente. Uma história de pessoas e de países, de países que mudam e de pessoas que se mudam de armas e bagagens, levando a alma atrás, quando se cansam de os outros as tomarem como territórios já conquistados.
O texto de apresentação que se encontra no sítio do Teatro Nacional D. Maria II é um bom ponto de partida para quem ainda precise de que o seu apetite seja despertado:
"Annie Silva Pais, filha única do último director da PIDE, o Major Fernando Silva Pais, é casada com um diplomata suíço. A estada em Cuba e um encontro com Che Guevara mudarão a vida de Annie, que, saturada de uma existência em função das aparências, condicionada pelo aparelho repressivo do regime ditatorial português, se entregará integralmente à revolução cubana e aos seus ideais. Desaparecida durante algum tempo, Annie abandona o marido, a família e o país. No Portugal de Salazar, todos temem que tenha sido raptada e utilizada no contexto da guerra colonial. Mas Annie envolve-se numa profunda luta de valores e convicções, só regressando a Portugal após o 25 de Abril para ir visitar o pai à prisão. A coragem será uma das principais marcas de Annie, que protagoniza uma peça onde o drama, a traição, os afectos, a morte e os combates políticos se cruzam naquela que é uma história de vida rara e exemplar."

Ah, falta acrescentar: não tenho ouvido os críticos da actual direcção do D. Maria, que trataram o Carlos Fragateiro como se ele fosse uma abentesma quando ele foi nomeado, não os tenho ouvido falar muito nos últimos tempos. Porque será?

março 15, 2007

A verdade vem sempre ao de cima

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(Foto de Porfírio Silva)

Se a verdade vem sempre ao de cima, o que fazem eles lá em baixo?
Leandro Erlich, da Argentina, responde por esta Piscina, de 2004.
(Museu Século XXI de Arte Contemporânea da cidade de Kanazawa, Japão, 5 de Novembro de 2005, data de abertura da exposição Alternative Paradise.)

março 02, 2007

Habitar um mundo feito com peças de corpos

Gu Wenda, nascido em Xangai em 1955 e formado no seu país natal, é um dos artistas plásticos chineses de maior renome internacional, vivendo e trabalhando actualmente em New York. Tem exposto em inúmeros países ocidentais e orientais. Um do seus trabalhos mais recentes, a "Série das Nações Unidas", foi desenvolvido entre 1993 e 2004 e exibido em mais de vinte países. A instalação que aqui vemos pertence a essa série.



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(Foto de Porfírio Silva)


Gu Wenda é um renovador das artes tradicionais chinesas: esta instalação dá uma nova dimensão à caligrafia com pincel de tinta - ao mesmo tempo que se cruza com as tendências para dar ao corpo humano um papel central na expressão artística. Trabalhos anteriores de Wenda já tinham renovado a arte da caligrafia de outro modo: usando falsos caracteres chineses, por si inventados.
Esta instalação intitula-se "Monumento da China: Templo do Céu" e é construída com cabelos humanos, de pessoas de muitas terras de todo o mundo, diferentes raças e ambos os sexos, que compõem "falso texto": palavras em caracteres imaginários do chinês e de outras línguas que existem à face da terra.



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(Foto de Porfírio Silva)


O lugar central concedido aos cabelos humanos nesta instalação é significativo. Os cabelos, mesmo quando arrancados ou cortados, mantêm memórias muito precisas do corpo que os criou (permitem uma identificação individual precisa pelo ADN). O cabelo está associado, de formas diferentes de cultura para cultura, à vida e à morte, à privacidade, à hereditariedade, à fé, à identidade, ao nacionalismo, etc. . Para os chineses, o corpo, o cabelo e a pele representam o património dos antepassados. O humano concreto e particular cruza-se com a globalização nesta obra, na qual também se cruzam as nossas memórias culturais (Dalila derrotou Sansão cortando-lhe os cabelos...).



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(Foto de Porfírio Silva)



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(Foto de Porfírio Silva)


Wenda quer que a sua instalação seja habitável. Daí a presença de mesas, cadeiras e bancos. Se lá nos sentarmos ficamos, natur-cultur-almente, no meio de pedaços de corpos como nós.



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(Foto de Porfírio Silva)


No Verão/Outono de 2006, o Hong Kong Museum of Art, localizado em Kowloon, apresentou esta instalação de Gu Wenda numa exposição intitulada "Hair Dialogue", que tivemos a oportunidade de visitar. Nessa exposição integrava-se também a instalação "Memorize the Future", da artista chinesa Leung Mee-ping (nascida em Hong Kong em 1961, ano de boa produção como é sabido). A imagem abaixo é desse trabalho de Leung Mee-ping.



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(Foto de Margarida Marques)

(A primeira versão deste apontamento foi publicada no sítio O Império do Meio.)