Sete contra Tebas
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Machina Speculatrix
Este é o arquivo do Tema "6. Memórias e Objectos" | Regressar à Entrada
Imagem de Nancy Burson, Scientific American, Dezembro 2003 ( ver mais do seu projecto artístico e interventivo em "There is only one race, the human one. The concept of race is not genetic, but social. There is no gene for race. The Human Race Machine allows us to move beyond differences and arrive at sameness. We are all one." )
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Mon père
Mon père,
não sei porque te chamo assim,
não falavas francês,
mas isto provavelmente terias entendido,
talvez eu to diga numa língua estrangeira
por causa da distância,
conseguíamos amar-nos
apenas assim:
não muito de perto.
Estávamos sentados
em velhas tabernas,
bebíamos um riesling
ou um šipon
ou, mais frequentemente,
qualquer vinho ácido,
falávamos
das coisas muito comuns.
A vida parava
por de trás das portas,
numa distância segura.
Parecia impetuosa demais
para lhe dar um nome.
Tínhamos medo,
mon père,
das palavras fortes demais.
Agora és apenas
uma foto na parede
e uma tumba num bonito cemitério.
Acendo-te uma lamparina,
trago-te flores.
Não a ti,
aos teus ossos.
Conto-te
tantas cousas.
E tu calado.
Apenas a tua lápide.
Com as datas.
De – a.
Meu Deus,
que cousas os filhos não dizem
hoje aos pais.
Aos vivos e aos mortos.
Mon père,
nenhum era
como tu.
Tão só,
tão meu,
tão pai,
perdido neste mundo
como eu.
Kajetan Kovič
(tradução de Želimir Brala) in Litterae Slovenicae / Slovenian Literary Magazine, 2 – 1999 – XXXVII – 95 – Número integralmente em português, dedicado a “Nove poetas eslovenos contemporâneos” (pp. 21-22)
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Olores
En la mañana de todos los días
el olor excitante de hierba seca,
el sabor de orujo,
el olor húmedo de bodega
y la luz terrosa
del sueño repentino
cuando siluetas blancas de los muertos
esperan delante de la puerta
y como perros humildes
husmean la casa y el umbral
y el vestíbulo oscuro
donde los muchachos a las primeras horas de la tarde
sienten el escalofrío y el pavor de las muchachas.
Kajetan Kovič
(tradução de Nina Kovič) in Litterae Slovenicae / Slovenian Literary Magazine, 2 – 1997 – XXXV – 91 – Número integralmente dedicado à poesia de Kajetan Kovič (p. 93)
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Para enquadramento: «A poesia de Kajetan Kovič considera-se o marco divisório, erguido em ambas partes, que representa a passagem da poesia tradicional para a poesia moderna. Kovič faz parte do grupo dos poetas que publicaram “Permi štirih” (“Os Poemas dos Quatro”), a compilação que introduziu “o intimismo” e a postura poética apolítica que acabou por ser entendida, porque se afastou do realismo social e adrede tomou a atitude contra “a poesia de alvião” que pateticamente glorificava o trabalho e a colectividade e onde quase sempre figurava o sujeito “nós”, como um acto político.» (Matej Bogataj)

Está praticamente bom. Só falta o "praticamente".

Esta é a imagem da próxima presidência portuguesa (do Conselho) da União Europeia.
Está no sítio da mesma.



EXPOSIÇÃO A VISITAR NA GALERIA RATTON, Rua Academia das Ciências, 2C, em Lisboa
(Agradecemos que a Directora da Galeria Ratton tenha autorizado a divulgação aqui destes elementos: texto supra e imagens infra.)




Utamaro Kitagawa, “Fonte de poema”: quarto no primeiro andar (as reproduções ocidentais costumam assumir o título "Os Amantes").
(Kitagawa é um dos artistas mais populares no Japão da segunda metade do século XVIII, mas tem outras obras que correspondem pouco à idealização que Nakagawa nos propõe...)

Caligrafia, no Templo do Buda de Jade, em Xangai, China. Caligrafia onde a luz mostra o seu espanto, onde a luz deixa uma marca de exclamação. Que espanto mostra a luz com esse sinal? Porque exclama a luz? Talvez pela nossa incompreensão.
Na China a escrita é um ramo das artes visuais, sem equivalente em nenhuma outra cultura. Os mais antigos testemunhos da escrita chinesa datam de há cerca de 3700 anos. As formas mais antigas eram inscrições divinatórias de que o soberano se servia para consultar os Espíritos sobre as grandes decisões do Estado. Essas primeiras inscrições traduziam conceitos e não falas. Pouco a pouco os símbolos foram-se aproximando da língua falada. A escrita chinesa mudou, entretanto, muito, mas mantém influência dessas origens.
Na China há escrita por todo o lado: em lugares de honra nos palácios e nos templos, nas paredes das lojas e das casas de chá, nas mais pobres casas da mais isolada aldeia.
Segundo certas opiniões, não é preciso saber ler chinês para apreciar a caligrafia. Pode apreciar-se a caligrafia sabendo como se escreve. Uma vez que cada caracter é composto por um número preciso de pinceladas, que devem ser dadas numa ordem precisa, podemos conhecer a dinâmica gestual que esteve na base de cada texto que vemos desenhado. E essa dinâmica pode ser apreciada mesmo sem compreender o chinês. O próprio conhecedor da língua chinesa pode ser colocado nessa situação, porque há uma forma de caligrafia (“escrita de erva”), uma espécie de estenografia frenética, que resulta quase indecifrável para a generalidade dos leitores chineses – mas é apreciada visualmente.
A caligrafia como forma de arte surgiu apenas no século III da nossa era, na época Han. A partir daí tornou-se uma disciplina, com teóricos, mestres, críticos, coleccionadores – até se tornar a mais prestigiada de todas as artes.
A caligrafia é executada com tinta, sobre seda ou papel, aplicada com um pincel – o que é um difícil exercício de controlo, requerendo concentração mental, equilíbrio físico, controlo muscular. Coisa para demorar muitos anos a dominar com alguma competência! A tinta, sendo instável (subtis matizes de brilho, negrura, profundidade, espessura, fluidez, secura, …), oferece inúmeras possibilidades expressivas. O papel ou a seda, sendo imediatamente absorventes, não permitem erros, nem hesitações, nem arrependimentos. Todas as tremuras do espírito ou do corpo ficam registadas.
Escrever: uma arte dos que apreciam a durabilidade do efémero.
(Recorremos ao capítulo 4 da obra de Simon Leys, Ensaios sobre a China, de 1998, com tradução portuguesa na Livros Cotovia, 2005)

Vistas da noite no bairro de Ginza (Tóquio).
(Foto de Porfírio Silva. 7 de Novembro de 2005.)

Vista de rua em Asakusa (Tóquio).
(Foto de Porfírio Silva. 7 de Novembro de 2005)
Ah, falta acrescentar: não tenho ouvido os críticos da actual direcção do D. Maria, que trataram o Carlos Fragateiro como se ele fosse uma abentesma quando ele foi nomeado, não os tenho ouvido falar muito nos últimos tempos. Porque será?

Se a verdade vem sempre ao de cima, o que fazem eles lá em baixo?
Leandro Erlich, da Argentina, responde por esta Piscina, de 2004.
(Museu Século XXI de Arte Contemporânea da cidade de Kanazawa, Japão, 5 de Novembro de 2005, data de abertura da exposição Alternative Paradise.)

Gu Wenda é um renovador das artes tradicionais chinesas: esta instalação dá uma nova dimensão à caligrafia com pincel de tinta - ao mesmo tempo que se cruza com as tendências para dar ao corpo humano um papel central na expressão artística. Trabalhos anteriores de Wenda já tinham renovado a arte da caligrafia de outro modo: usando falsos caracteres chineses, por si inventados.
Esta instalação intitula-se "Monumento da China: Templo do Céu" e é construída com cabelos humanos, de pessoas de muitas terras de todo o mundo, diferentes raças e ambos os sexos, que compõem "falso texto": palavras em caracteres imaginários do chinês e de outras línguas que existem à face da terra.

O lugar central concedido aos cabelos humanos nesta instalação é significativo. Os cabelos, mesmo quando arrancados ou cortados, mantêm memórias muito precisas do corpo que os criou (permitem uma identificação individual precisa pelo ADN). O cabelo está associado, de formas diferentes de cultura para cultura, à vida e à morte, à privacidade, à hereditariedade, à fé, à identidade, ao nacionalismo, etc. . Para os chineses, o corpo, o cabelo e a pele representam o património dos antepassados. O humano concreto e particular cruza-se com a globalização nesta obra, na qual também se cruzam as nossas memórias culturais (Dalila derrotou Sansão cortando-lhe os cabelos...).


Wenda quer que a sua instalação seja habitável. Daí a presença de mesas, cadeiras e bancos. Se lá nos sentarmos ficamos, natur-cultur-almente, no meio de pedaços de corpos como nós.

No Verão/Outono de 2006, o Hong Kong Museum of Art, localizado em Kowloon, apresentou esta instalação de Gu Wenda numa exposição intitulada "Hair Dialogue", que tivemos a oportunidade de visitar. Nessa exposição integrava-se também a instalação "Memorize the Future", da artista chinesa Leung Mee-ping (nascida em Hong Kong em 1961, ano de boa produção como é sabido). A imagem abaixo é desse trabalho de Leung Mee-ping.

(A primeira versão deste apontamento foi publicada no sítio O Império do Meio.)