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Machina Speculatrix

Este é o arquivo do Tema "7. Poesia" | Regressar à Entrada

março 21, 2007

Fahrenheit 452 (carta aos novos poetas portugueses)

passas a mão pelo pêlo do bicho
e escreves “hirto, o pêlo do bicho”
e confias que eu compreenda:
porque conheço o pêlo, conheço o bicho e conheço “hirto”
já os encontrei em outros dias não olvidados
já usei essas palavras e esse bicho
tudo isso tu esperas

imaginas que por muito pobre que eu seja hei-de ter visto um bicho algures
afinal, livros com histórias compreensíveis estão à venda nos quiosques de jornais
qualquer jornal televisivo encontra cientistas sociais nos seus inquéritos de rua
alma por alma, tens a tua, imaginas tu nos teus diálogos amorosos comigo, teu leitor;
mesmo os pedintes podem nos cruzamentos ver toda a sorte de fantasias
como se acolitassem o sumo pontífice em audiência à embaixada
que o pitoresco e gastador monarca enviou com elefantes e onças amestradas
para que se soubesse na cristandade a ventura que era ser rei deste reino de portugal
e ter assistido à descoberta do caminho marítimo para a índia e à rota do brasil

o que tu não podes saber é de onde conheço eu o bicho
nada suspeitas quanto a que hirto está o meu pêlo
e que o que mais temo é que me toques o dorso
e que o meu receio é a fraca agilidade para morder-te a mão;
transtorna-me que penses sequer no meu abrigo natural
e não penso uma só vez que isso aconteça apenas na camada de cima do teu poema

se pudesses morder-me, eu compreendia-te
mas tu escreves para que as palavras me façam sentido
para que haja uma palavra tua para cada tijolo do mundo
seja por nomeares as peças da máquina com palavras próprias
seja por podares as palavras sem dono
e isso cria-me o desconforto de sugerir que te compreendo:
parece que me desejas um abrigo
imagino a tua disposição para me acolher no recanto de onde parte o teu olhar
e isso incomoda-me

se quisesse morder-te, compreendia-te
mastigar explica muita coisa
mas como queres que a gente se morda num abrigo?
se me expulsasses
se pairassem alienígenas nas nossas salas
se as nossas mães com armas mirabolantes se apresentassem nos nossos quartos
e os nossos filhos fossem enxertados em artefactos engenhosos
se os incendiários não usassem tão apenas querosene
talvez o falecer da compreensão me ajudasse
– mas como queres que valha a pena ouvir o que já está escrito?

Podes até acariciar-me, isso não faz mal algum
porque nada explica
mas esquecem-se-me os poemas, prefiro as parábolas
fugidias.

Porfírio Silva
(27 de Agosto de 2003)

março 08, 2007

(no dia internacional da mulher)

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Águas. (Foto de Porfírio Silva)

é comum os homem considerarem a possibilidade de esculpir mulheres.
não como esculturas de carne, não em fazê-las corpos belos
porque em geral os homens só consideram esculpir mulheres já dotadas de corpos belos
mas esculpi-las moralmente
como esculturas de comportamentos que eles julgam sofisticados
esculturas de modos de ser delicados, de maneiras rebuscadas,
de uma inteligência sensual e um apelo suave mas insistente ao desvario.

é de uso os homens pensarem nas mulheres como seres educáveis
muito embora o magno problema da educação
só lhes ocorra para certos olhos de uma particular luz
para certos lábios de uma especial carnura
para certos seios de uma curva evanescente,
porque em geral os homens só pensam em educar mulheres perturbadoras
e as suas teorias educativas, de tão elementares,
batem sempre no ponto do bom selvagem.

um escolho notável para esta pulsão escultórica
está, as mais das vezes, em que os homens conhecem mal
o tema do bom selvagem e assim não têm meios
para evitar o clássico das descobertas:
que o confessor ingénuo se converta
aos pecados do seu penitente e aos demónios do seu incréu,
ao paraíso celeste daquele gentio que a sua teologia dita desprovido de alma.

Uma perdição notável é sermos esculpidos pelas nossas estátuas.


Porfírio Silva

(Que eu escreva sobre a mulher, isso deve acontecer fora das efemérides. Se não somos capazes de criar as nossas próprias efemérides, as nossas efemérides pessoais, as nossas efemérides grupais, as efemérides da nossa pequena tribo, de que vale escrever? É assim que o poema acima foi fruto da escrita de outro dia, tendo sido dedicado à Margarida M. desde a sua primeira aparição. Continua, hoje, dedicado à Margarida M., mas, também a todos e a todas para quem o enigma da mulher alimenta as suas viagens por terra e por mar.)

março 05, 2007

Fragmento de uma biologia dos monstros antigos

Poderás pelo poder da tua fábrica produzir monstros antigos?
Poderás, mesmo sem vestígios fósseis,
pela pura compreensão do seu genoma,
construir um centauro,
de raiz, sem pai nem mãe,
como um programa na máquina a correr,
ou apenas com peças avulsas de monstros modernos?
Será possível um corpo,
metade homem metade cavalo,
que a evolução não trouxe, natural, até hoje,
resultar da tua habilidade recente?
Nasceria de tal arte um rosto, torso e braços semelhantes aos teus
com garupa e pernas de equídeo?
Pergunto-me de que outras estruturas corporais complicadas
será capaz o teu engenho.
Bichos fantásticos, metade lagostim metade cabra,
vivendo ora em seco ora na água?
entes metade anjo metade escorpião,
metade virgem metade rei,
metade candura metade linguagem?
Estará no poder da tua fábrica
compreender a génese ao ponto
de estruturas corporais espantosas resultarem,
produzindo novos monstros antigos,
metade palavra metade silêncio,
vivendo ora nos teus ora nos meus medos?


Porfírio Silva



Nota. Este poema, aquando da sua primeira disponibilização pública, estava dedicado à Mariana R. - e continua, hoje, dedicado à Mariana, mesmo que ela ainda ache (erradamente) que a sua ciência não chega para a alquimia aqui sugerida. Ainda para mais depois de ela me ter dado a honra e o gosto de deixar que se veja este texto no seu apartamento parisiense. Farás, depois, robots de novo género com a tua biologia, Mariana?